sábado, 2 de agosto de 2014

41 - Uma católica de joelhos, mas sem orações

Carolina, estando diante de uma Alice modificada, friamente agressiva e pró-bolsonários, ficou tensa. Após ouvir a sugestão de que ela tinha utilidade ao grupo extremista, sentiu os dedos se contraírem, formigando em nervosismo.

Assim como o menosprezo de Alice mudara para admiração, a ofensa de Carolina se transformou em estressante vulnerabilidade, posto que, antes, entendia-se apenas assediada por um miguxês amolador e presumivelmente despropositado, enquanto que, agora, via-se cobiçada para finalidades extremistas. Ou, pelo menos, supunha serem extremistas, já que diziam respeito aos bolsonários.

Porém, mesmo não gostando de sentir-se assim, exposta e visada, tão pouco quis ficar no escuro. Se Alice dizia haver demanda por seu bom senso, poder de argumentação e carisma, tal qual ela os descrevera, Carolina desejava saber o motivo. Não por mera curiosidade, ou por impulsos vaidosos, como se pensasse “quero saber, em detalhes, o que estão vendo em mim”, feito uma escritora de fanfic carente por elogios gratuitos.

Longe disso: era mais para futura referência. O que quer que Alice estivesse vendo nela, e o que quer que a fizesse julgá-la disposta a colaborar com os bolsonários, Carolina quis desassociar de sua imagem, o quanto antes. Pois, se não o fizesse, receava ter dificuldades para negociar novos patrocínios.

Não era submissa aos seus patrocinadores, mas também cuidava para não aborrecê-los. Na medida do possível, evitava motivá-los a boicotar seu vlog.

Sendo assim, quando Fernanda as interrompeu, perguntando "do que estão falando?", toda bronqueada com a negligência ao ferimento de Seu Paulo, Carolina cortou-a de imediato, resmungando enfurecida:

— Como assim do que estão falando? É assunto nosso, Fernanda! Não se mete!
— Eu me meto sim! Isso é hora pra vocês discutirem? Ajudem o Seu Paulo primeiro!
— Ninguém aqui está se preocupando com ele. Por mim, ele fica onde está!
— É fácil pra você falar. Ele não está jogado no seu setor, e sim no meu! Vocês querem me complicar?
— A limpeza deste setor é responsabilidade sua, não minha. Pegue a vassoura e livre-se da sujeira você mesma.
— Não tem graça, Carolina! Isso é omissão de socorro. Se ele morrer, podemos ir pra cadeia!

Fernanda fez o sinal da cruz, novamente clamando pela intervenção divina, ainda eximindo-se de providenciar, ela própria, uma intervenção humana. Atitude zelosamente omissa, própria a 90% da comunidade religiosa, condizente ao catolicismo benévolo, mas nada intrusivo, da promotora.

Carolina, querendo se esclarecer sobre essa tal utilidade aos extremistas, e percebendo que Alice, a agressora em si, estava alheia aos protestos de Fernanda, tentou colocar um ponto final no caso de Seu Paulo, propondo:

— Pegue seu headset e chama o SAMU. Essa coisa pendurada no seu pescoço não é decoração. Serve para telefonar.
— Sim, mas pegue o kit de primeiros socorros, fazendo favor. Temos que limpar essa ferida.
— Vá você. O headset não está preso a esta mesa. Ele funciona tanto aqui quanto no almoxarifado.
— Eu não posso fazer isso sozinha! Pelo menos tente manter o Seu Paulo acordado. Sei lá, dá tapinhas no rosto dele.
— É tentador, mas não, obrigada. Prefiro nem tocar nele.
— Por quê? Qual é o problema?
— Cyberbullying e compaixão não caminham de mãos dadas. Pelo menos, não no meu mundo.
— Do que está falando?
— Essa pergunta é séria? Será que você é tão distraída assim? Ou você fica se fazendo de zonza, só pra fugir de assuntos complicados? Já se esqueceu da mensagem enviada a mim através do Cowboy Recauchutado? Já se esqueceu de que ele é o Procriador Veterano?
— Aff, Carol! Não importa o que ele fez a você! Ele é um ser humano, como todos nós. Também merece nossa consideração.
— Só porque você quer! A partir do momento em que ele desrespeitou minha dignidade, automaticamente me autorizou a desrespeitar seu bem-estar.
— Meu Jesus amado! Você realmente não vai me ajudar, Carolina?
— Até parece, né?! Mais um pouco e eu é quem teria batido nele!
— Por favor, não pense assim. Lembre-se do que se diz em Levítico: não te vingarás; não guardarás rancor contra os filhos de teu povo; amarás o teu próximo como a ti mesmo.
— Bem, eu vou falar no seu idioma, para você me entender direitinho. Pelo que sei, tenho direito ao livre arbítrio. Logo, por meio dele, reivindico autonomia para trocar o “amarás o teu próximo como a ti mesmo” por “amarás o teu próximo como ele ama a ti”. Assim, fico habilitada a dedicar aos outros o mesmo sentimento dedicado a mim.
— Sua infame! Toda palavra de Deus é pura! Não deve acrescentar nada às suas palavras, para que Ele não te repreenda!
— Se isso acontecer, assumirei minha responsabilidade. Assim como Ele deverá assumir suas responsabilidades comigo. Pois se Ele, de fato, está simplesmente observando em Seu trono, enquanto o mundo se diverte praticando maus tratos animais, pedofilia e rituais de magia negra regados à tortura, terá muito pelo que responder.
— Como tem coragem de dizer isso?
— Quem sabe? Talvez porque sou azeda demais pra ser chupada, como o zueiro cretino me disse. Mas prefiro pensar que sou uma ovelha com forte senso de autopreservação. Uma ovelha que jamais seguirá cegamente a um pastor qualquer.
— Você é uma imprudente! Um coração leviano disfarçado de sábio. As marcas de um anti-cristo!
— Oh, obrigada por esta difamação, tão bem formata em vocabulário católico. Traduzindo sua conversa para a linguagem legislativa brasileira, sabe como ficaria? Tu não tocarás no bandido, mesmo quando ele legitimar tua defesa. Pois em verdade vos digo: aquele que fazê-lo, será estuprado pela lei.
— Blasfemadora!
— Mesmo? E quanto a você? Sua conivente, rabo entre as pernas, ombro amigo de londrinense grosseiro, muleta de brasileiro malcriado! Que mania esse país tem de proteger pessoas sem valor! Que mania de não querer confrontá-las com mão de ferro! Na boa?! Se está com dózinha do zueiro, leva pra sua casa e cuida dele você mesma!

Alice deu risada, começando a aplaudi-la.

Isso mais desagradou do que realmente envaideceu Carolina. Apontando para a gerente, a vlogueira disse:

— Sinceridade?! Por que está me cobrando? Foi a Alice quem aprontou esta bagunça, não eu.

Alice, virando-se para Fernanda, apenas deu de ombros, toda desapegada e imperturbável. Colocou uma mão na cintura, enquanto a outra segurava o tablet, dizendo:

— Foi como a Carol falou: ninguém aqui está se preocupando com ele. Se está com dó, basta adotá-lo e levar para sua casa.

O peito de Carolina queimou em angústia. Era pavoroso ver-se em concordância com Alice. Muito embora ambas desgostassem de Seu Paulo, cada uma tinha seus motivos para isto. Motivos que não deveriam ser confundidos como uma coisa só, tanto quanto presumiria um entusiasta por história e geografia, louco por denunciar vestígios de fascismo.

Fernanda, chocada com esta insensibilidade, desencostou-se da divisória e bateu as mãos contra a escrivaninha, revoltada e escandalosa. Agora desperta do susto, lembrando-se que tinha um emprego a manter, bem como uma ficha limpa a preservar, disse:

— Vocês duas são uns demônios! Só sabem obrar o mal! Só sabem ficar de papinho no corredor, deixando o serviço pesado pra mim!

Carolina, incapaz de fazer Fernanda calar a boca, e não conseguindo retomar a discussão com Alice, ficou igualmente revoltada. Tomou um passo adiante e socou a escrivaninha com uma violência ainda maior. Encarando Fernanda nos olhos, vociferou:

— Antes um demônio que bate de frente com os outros do que um Judas que esfaqueia pelas costas!
— O quê?
— Esse esterco de erva daninha manchou minha honra e me fez o maior terrorismo psicológico, insinuando vir atrás de mim no futuro! E você, mesmo assim, oferece a ele propaganda gratuita no MEU vlog, Fernanda? No MEU vlog? E sem me consultar? Que putaria foi aquela?

Fernanda recuou outra vez para a divisória. Testemunhara a hostilidade de Alice, e agora estava prestes a testemunhar o mesmo em Carolina, sendo que, desta vez, era uma agressão voltada contra si, não contra Seu Paulo.

Ainda impressionada com o zueiro desmaiado, cuja testa se banhava em sangue empoçado, e temendo ser vítima da mesma retaliação, posto que a vlogueira e a gerente pareciam unidas, baixou o tom de voz e murmurou, feito uma necessitada pedindo misericórdia:

— O que você queria? Eu tenho metas a cumprir. Eu dependia do Seu Paulo para atingi-las.

Então sua voz falhou, quebrando-se em soluços. Escondeu o rosto atrás das mãos, mergulhando-se em lágrimas. Estava inconsolada e assustada, incapaz de lidar com o idoso ferido, a ferocidade de Carolina e a presença ominosa de Alice, tudo de uma vez só.

— Acha que eu gosto disso? De ser chamada de piriguete? De ser chamada de potranca? De ficar usando essas roupas apertadas na frente dele, sabendo que ele vai se masturbar pensando em mim? Não! Não gosto, tá?! Odeio tudo isso! Mas se eu preciso comer e pagar as contas, o que mais posso fazer?

Rendendo-se ao choro, agachou-se atrás da cadeira e baixou a cabeça até os joelhos, repetindo para si:

— O que mais posso fazer?

Carolina, ainda apoiada na escrivaninha, vendo a figura fragilizada de Fernanda, sentiu o fervor raivoso esfriar. Perdera a vontade de continuar a discussão.

Embora discordasse de sua política de boa vizinhança, também não desejava repreendê-la desse jeito. Não ao ponto de ela chorar. Não tinha intenção de deprimi-la, nem de tornar seu trabalho na Landschaft uma experiência lamentável e opressiva.

De fato: jamais voltaria atrás no que dissera. Para Carolina, suas palavras eram frutos de seu caráter, não de seus impulsos inconsequentes. Sempre assumiria tudo o que dissesse. Era ávida por manter sua integridade, não por agradar as multidões.

Porém... também sabia a hora de recuar. Sabia quando dizer para si “já chega”. Tanto que, vendo Fernanda curvada ao chão, soube que o momento era aquele.

Alice, percebendo a firmeza com que Carolina lidara com a situação, e tendo a certeza de que ela não iria consolar ou mimar a promotora, sorriu feito uma observadora onisciente, soberba e pomposa, dizendo à vlogueira:

— Sabe o que vejo?
— ...

Carolina virou-se para ela, séria e estressada, de saco cheio de tudo aquilo. Mantendo uma mão na cintura e franzindo a testa, ouviu a gerente dizer:

— Vejo exatamente o que o Brasil precisa. Assim como o que não precisa. Um exemplo de fortaleza, e um exemplo de fraqueza. Bem aqui, na minha frente. Um fazendo contraste com o outro.
— ...
— Você sim é fruto do que há de melhor em nossa caótica genética mestiça. É a base para uma geração unificada, homogênea e com maior identidade nacional.
— Eu não sou uma bolsonária, Alice! E também não sou propriedade deles! Não fale comigo assim!

A porta do estúdio se abriu, revelando a figura de Dalborga.

Deparando-se com a imagem de Seu Paulo, caído e ensanguentado, e a de Fernanda, chorosa e encurvada, ele bradou em choque:

— MAS QUE OBRA DO SATANÁS É ESSA?

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Novo capítulo dia 03/08, as 22:00, horáro de Brasília.


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Compilação dos capítulos 17 a 33 disponível gratuita no Smashwords e Itunes.