quarta-feira, 30 de julho de 2014

40 - Colocando os pingos nos i's

Seu Paulo, caído com o rosto para baixo, perdera a consciência. Seu braço se dobrava ao lado das costelas, formando um L, enquanto seu boné de aba reta, lançado para trás, ficou tombado aos pés da cadeira, projetando a base da coroa para o teto. Sangue morno vertia de sua testa, onde se abrira um corte profundo de 3cm de largura. Escorria em filete até a sobrancelha, caldoso e salgado, empoçando-se no chão.

Fernanda se espremia contra a divisória. Abraçava a própria barriga com um dos braços, enquanto o outro era levado até seu rosto, cobrindo a boca com a mão. Seus olhos estavam vermelhos e lacrimosos, marejados pelo susto, encarando revezadamente Alice, Carolina e Seu Paulo.

Por um momento, ela seguiu sua educação católica. Clamou por uma intervenção divina, orando para que Deus, e não ela, fizesse alguma coisa. Isentou-se de providenciar os devidos cuidados ao ferido, limitando-se a simplesmente contemplá-lo, sem nem ao menos perceber que, com seu headset, já poderia ter chamado uma ambulância.

Contudo, também se perguntava quem se responsabilizaria por isto. Supunha que Alice, sendo a gerente de RH, um cargo mais propício à imunidades do que o cargo de promotora publicitária, poderia não apenas se livrar da culpa, como também empurrá-la para seu colo. Afinal, Seu Paulo estava caído em seu setor, e sangrando em sua central de vendas, não no escritório de Alice.

Além disso, mesmo diante deste horror, também pensava em como cumpriria a meta de vendas do próximo mês. Não acreditava que seus mimos trariam Seu Paulo de volta àquele prédio.

“E isso se Deus já não o tiver levado daqui para sempre. É como se Golias tivesse derrubado Davi, e não o contrário. Uma violência dessas só pode significar uma coisa: Jesus está voltando! É a sexta trombeta!”

Enquanto Fernanda se perdia nestes delírios de perseguição, imaginando prenúncios apocalípticos, Carolina, soltando-se da maçaneta, manteve-se a dois passos de distância de Alice. Lamentou o isolamento acústico do local, que impedira a turma da redação de ouvir a confusão

Não teve pena de Seu Paulo. Se ele pensava que poderia falar com os outros como quisesse, e fazer deles o que bem entendesse, presumindo que ninguém teria coragem de confrontá-lo, só porque usava um jargão de zueiro criminoso, então azar o dele. Sofreu as consequências dos seus atos. Encontrou alguém que lhe respondesse à altura.

Na verdade, para Carolina, que nem precisara tomar parte na pancada, saudoso corretivo à moda antiga, não havia satisfação melhor. Seu Paulo estava esticado no chão, abatido e humilhado, e sem necessidade de que ela assumisse a responsabilidade.

Aquilo era a própria imagem do prazer. Não poderia haver júbilo maior. E ela até poupara-se de futuras represálias, que geralmente eram protagonizadas por parentes e amigos de brasileiros barraqueiros. Era algo comum aos tipinhos incorrigíveis: tinham o apoio de pessoas igualmente sem valor.

Sim, o zueiro caído não era o problema.

O problema era Alice. Mais especificamente: os motivos pelos quais ela o agrediu. Motivos já insinuados na inesperada mudança de linguajar,  minutos antes.

Pouco interessada em prestar os primeiros socorros a Seu Paulo, e temendo muito mais a presença da gerente, Carolina disse:

— Alice, o que foi isso?

Ela, ainda de costas, com a cabeça voltada para o zueiro, olhando a poça de sangue ao redor de sua testa, respondeu:

— Isso se chama controle de pragas, Carolina. Se chama higienização social.
— ...
— Sabe, durante os três meses em que você esteve conosco, eu nunca me interessei por você. Achava que era mimada, oportunista e sem planos para o futuro. Pois, além de ser jovem, você é muito paparicada pelos universitários. Achava que toda essa adulação tinha subido a sua cabeça. Realmente pensei que você era só um rosto bonitinho, sem nada de especial a dizer. Um rosto bonitinho adorado por um monte de cuecas punheteiros.

Carolina se ofendeu. Ela sabia que sua aparência era socialmente aceitável, além de 100% apreciável. Cresceu ouvindo suas tias baba-ovos, as comadres do bairro e os colegas de escola lhe dizerem, o tempo todo, que era lindinha. Era impossível olhar-se no espelho, comparar-se com as atrizes das novelas, os modelos de beleza da mídia paulistana e carioca, e não perceber que seu rosto, de fato, tinha traços semelhantes aos delas.

Assim como era impossível não perceber os benefícios trazidos por essa aparência. Maior receptividade nas entrevistas de emprego, maior simpatia no atendimento dos comerciantes, maiores chances de conseguir um desconto nas compras feitas numa feira livre. Não era burra e nem hipócrita: já percebera que as simpatias e antipatias da sociedade dependiam, sim, da aparência do corpo. Mesmo ela não querendo, era assim que funcionava.

E não só Carolina sabia disso, como também as pessoas ao seu redor sabiam. Pessoas que viam as portas se abrindo para a vlogueira, fosse em forma de novos patrocínios, fosse em forma de oportunidade empregatícia na Landschaft. Pessoas que entendiam o porquê de ela receber tanta preferência, enquanto elas próprias, de aspecto socialmente grosseiro, para não dizer odioso, tinham suas necessidades ignoradas, ou educadamente negadas.

Gente que, ao ver Carolina tão bem recebida por onde andava, e tão bem tratada pelo mundo, ressentia-se tanto com ela quanto com suas regalias, em vez de se ressentirem com aqueles que, após simpatizarem com a aparência dela, voluntariamente resolviam favorecê-la.

Carolina estava ciente destes ressentimentos. Não os ignorava, assim como não queria vê-los aumentar. Sempre buscou se esforçar, dedicando cuidadoso capricho ao seu trabalho e aos seus estudos, querendo ser merecedora dos acolhimentos que, a ela, vinham com tanta facilidade.

Motivo pelo qual Alice a ofendeu, confessando ter subestimado suas habilidades, e atribuindo o sucesso do seu vlog unicamente à estética do seu rosto. Uma ofensa tão grande, de penetração tão profunda em sua autoestima, que Carolina disse:

— Não tenho culpa se o mundo prefere agradar e favorecer garotas como eu. Eu simplesmente nasci assim. Eu simplesmente fiquei assim ao crescer. E desde o meu nascimento até os dias de hoje, as preferências do mundo sempre foram estas. Na verdade, desde muito antes de eu ter nascido, sempre foram estas. Você não pode me responsabilizar, ou mesmo me diminuir, só por causa de um comportamento que não apenas é praticado por toda uma coletividade, como também já existe muito antes de eu nascer!
— Estou surpresa. Então você reconhece que a sociedade brasileira te privilegia, mesmo que veladamente, só por causa da sua aparência?
— Sim. Eu já te disse antes e vou repetir: não sou burra, Alice. Eu não crio as regras do jogo, mas sei como elas funcionam. Sei muito bem que, neste mundo, julgamos os outros pela aparência. E sei que, por eu ser como sou, as oportunidades me surgem mais facilmente. Não sei porque meu cabelo liso, meus olhos verdes, minha pele clara e meus traços ósseos despertam tanto o interesse das pessoas. Eu só sei que é assim. Talvez seja por causa dos nossos valores como sociedade, como a Café com Leite diz. Talvez seja por um motivo animal já ultrapassado, no sentido mais biológico da palavra, como eu desconfio. Com certeza não é porque pertenço a uma raça superior, como os Patriotas Bolsonários quererão dizer. Mas tudo o que sei é que nasci e cresci com esta aparência, e justamente num mundo capitalista recheado de valores perversos e injustos. Independente de concordar ou não com os valores velados desta sociedade, eu preciso sobreviver. E preciso fazê-lo trabalhando no que sei trabalhar, com toda a dignidade e respeito possíveis a mim. A última coisa de que preciso é você me apontando o dedo, dizendo que sou algum tipo de mimada privilegiada, insinuando que não me esforcei para ter o que tenho. Não tente me fazer viver na culpa, como se eu tivesse agido mal ao aceitar as oportunidades oferecidas a mim, só porque essas mesmas oportunidades não foram oferecidas a você, ou a qualquer outro!

Alice, sorrindo, voltou-se para Carolina, dando as costas para Fernanda.

— Você me surpreende mais e mais, sabia?! Foi como falei: eu ACHAVA que você era mimada, oportunista e sem planos para o futuro. Eu ACHAVA que você era só um rosto bonito, sem nada a acrescentar. Mas agora é diferente. Por tudo o que falou, e por tudo o que já tinha falado naquela outra conversa, lá no corredor dos funcionários, minha opinião mudou. E foi bem a tempo, porque estávamos procurando alguém como você.
— Huh?
— Seu bom senso, seu poder de argumentação, seu carisma natural... Os Patriotas Bolsonários precisam de você.
— ...

Fernanda, considerando toda essa conversa inoportuna, justamente por estar de frente com um idoso desmaiado, abandonou suas paranoias e presságios apocalípticos para dizer, com voz sufocada e desesperada:

— DO... DO QUE VOCÊS DUAS ESTÃO FALANDO, NUMA HORA DESSAS?

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Novo capítulo dia 02/08, as 22:00, horáro de Brasília.


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Compilação dos capítulos 17 a 33 disponível gratuita no Smashwords e Itunes.