domingo, 27 de julho de 2014

39 - Alice no país do Huehue

Graças a sua divisória central, o 2° andar era repartido em duas metades iguais. Olhando da calçada, de frente com o prédio, a metade correspondente ao elevador dos funcionários ficava à esquerda, enquanto a do elevador dos clientes ficava à direita. Motivo pelo qual o comprimento e largura do estúdio de gravação eram iguais aos do seu aposento vizinho, a redação.

Tendo a porta da redação como referência, o estúdio tinha, montado logo à frente, um palco oval de 30cm de altura. Ficava perto da parede, alinhado no meio do cômodo, e era feito de madeira compensada, revestido com piso vinílico azul, de superfície brilhante e tato macio.

Em cima dele, ficava a bancada dos âncoras, feita de madeira MDF laminada, com superfícies laterais brancas e tampo de vidro preto. Estendia-se retangular ao longo do palco, cobrindo dois metros e meio de comprimento, oferecendo lugar para cinco pessoas. No painel frontal, acoplava-se um monitor de tela plástica dobrável, feito com tecnologia AMOLED, no qual se exibia, durante o noticiário, o título amarelo Jornal Parque Emam, com ocasionais saudações aos seus telespectadores.

Era ali que se apresentavam Dalborga e Valéria, recebendo, nas sextas e sábados, participações especiais de Carolina.

Atrás da bancada, fixo à parede, havia um painel de superfície escura e transparente, tendo embutido, em seu interior, um projetor holográfico em miniatura, usado para reproduzir imagens e vídeos tridimensionais sobre a cabeça dos apresentadores, conforme a necessidade da notícia. Eram projetados os mais variados Infográficos, cujos temas alternavam entre taxas de câmbio, índice de mortalidade no trânsito e requerimentos necessários para uma vaga de emprego.

Na divisória à direita do palco, ficava a porta para a central de vendas, onde Fernanda e Seu Paulo se encontravam. Na divisória à esquerda, ficava a porta para um corredor menor, que se estendia dali até a redação, ficando paralelo a ambas estas salas. Oferecia acesso ao almoxarifado, à sala da gerência e aos vestiários femininos e masculinos.

Na frente do palco, ao lado da porta da redação, ficava uma mesa comprida equipada com seis monitores slims, cada um contendo vinte polegadas. Também haviam três teclados e três mouses, todos da cor preta. Representavam a ala de controle, através da qual Renato, atuando também como diretor de TV, coordenava a transmissão do noticiário.

Entre esta mesa e o palco, haviam três tripés de prata. Erguiam-se até os ombros de Carolina, sendo cada um equipado com uma câmera digital de 8.000 pixels, capazes de gravar imagens em definição UHDTV, a resolução básica de uma TV doméstica brasileira. Uma delas apontava para a lateral esquerda da bancada. Outra apontava para a lateral direita, sobrando à terceira apontar para o meio, englobando o palco, o fundo e toda a bancada.

Eram operadas por um computador biomolecular, localizado ao lado da mesa comprida, em pé no chão, de aspecto cilíndrico semelhante àquele encontrado na gaveta de Renato. Não apenas operava o movimento das câmeras, como também enviava comandos aos monitores slims e ao projetor holográfico 3D, via bluetooth.

Carolina e Alice, sozinhas no estúdio, seguiam até a porta da central de vendas, driblando os tripés e passando pela ala de controle.

Alice estava comovida. Para ela, o puxão voluntário de Carolina era mais um elogio do que um desrespeito. Mesmo exibindo um rosto sério, seu coração pulava igual a um otaku junto a uma bela cosplayer, eufórico e apaixonado, como se Alice pensasse “ela tocou em mim, e está fazendo isto por conta própria! Estou no paraíso!”

Já Carolina estava mais apática. Os desaforos de Seu Paulo, bem como o tratamento dispensado à Fernanda, envenenavam seu humor. Se tivesse de vê-lo partir assim, todo satisfeito e presunçoso, sorridente como um evangélico homofóbico protegido pela lei, talvez sofresse um AVC.

Chegando na porta, pressionou o polegar contra o leitor biométrico e girou a maçaneta, abrindo caminho para o corredor dos clientes, lar da central de vendas. Com isto, terminara o trajeto em U iniciado no corredor dos funcionários.

Lá se encontrava, à direita, a escrivaninha de Fernanda, em cima da qual repousava seu notebook enrolável de OLED. Fernanda sentava-se de costas para a divisória central, de mãos unidas sobre o notebook e sorriso convidativo direcionado ao Seu Paulo, tendo seu headset VoLTE, fino e ajustável, pendurado ao pescoço.

Seu Paulo, sentado de costas para o elevador dos clientes, não dera atenção à chegada de Carolina e Alice. No momento, preocupava-se apenas em se curvar para frente, vidrado, excitado e preso ao encanto da irresistível loira. Olhava alternadamente de seus lábios carnudos para seu pronunciado decote, inflamado pelo doce perfume de cerejas, querendo despir a promotora a cada inspirada.

Fernanda, voltando-se para as recém chegadas, e meio revoltada com seu atraso, tentou dispensá-las dizendo:

— Tudo bem, gente. Seu Paulo e eu já nos acertamos. Não é, Seu Paulo?
— Já foi, sangue bom! Antes eu 'tava bolado, mas agora o caô 'tá dominado.

Virando para Carolina, Seu Paulo estendeu-lhe a palma da mão, em gesto de despacho, dizendo:

— Rala daqui, ôh alemã! Quem 'tá passando aqui é o bonde!

Carolina, lembrando-se dos insultos lançados a si no Bicadas, fechou os punhos e olhou fixa para o queixo do velho zueiro, ciente de que esta parte era a mais propensa a um nocaute, se atingida por uma forte pancada.

Alice, colocando a mão no ombro da vlogueira, tomou a dianteira, dizendo à Fernanda:

— Se me permite perguntar: qual foi o acordo?
— Seu Paulo receberá um desconto na próxima mensalidade, e terá divulgação gratuita no vlog de Carolina por duas semanas.

Os punhos de Carolina relaxaram, tamanha sua incredulidade. Voltou-se de boca aberta para Fernanda, muda e paralisada, num misto de decepção, mágoa e rancor.

Sentia-se traída pela colega de trabalho. Notou que ela escolhera, apesar de tudo, uma política de boa vizinhança. Preferiu favorecer o lado do ofensor, fazendo-se de covarde e submissa, em vez de colocá-lo em seu devido lugar, exigindo-lhe maior respeito.

E não apenas baixou a cabeça para Seu Paulo, como tentava fazer com que ela, Carolina, também baixasse a sua, oferecendo-lhe divulgação gratuita em seu vlog.

Dotada de amor próprio, incapaz de se render ao capricho de um brasileirinho mimado, Carolina estava prestes a recusar o acordo. Porém, foi cortada por Alice, que tomou sua vez dizendo:

— Entendo. Ou seja: vamos receber menos e trabalhar mais, enquanto ele, sem fazer nada, apenas sendo quem é, será beneficiado. O que é isso? Uma paródia da nossa política assistencialista? A Landschaft representará o glorioso sul, terra dos guris produtivos e civilizados, enquanto este acéfalo representará o nordestão, casa dos miseráveis e vagabundos, eternos dependentes do nosso suor?

Fernanda pôs a mão na boca, completamente pega de surpresa. Emudeceu apavorada, suspirando em desalento, assustada demais para remediar a hostilidade.

Seu Paulo não entendeu metade do que Alice falara, mas percebeu a provocação em sua voz. Foi o bastante para que fechasse a cara, levantando-se em desafio, encarando-a por trás dos óculos amarelos.

Carolina, dando um passo para trás, mais interessada em lhes oferecer espaço do que precaver-se contra um eventual empurrão, estranhou o jargão usado por Alice. As expressões política assistencialista, glorioso sul, guris e acéfalo, somadas à afirmação de que o povo nordestino era vadio, soavam-lhe familiares. Terrivelmente familiares.

Foi quando aconteceu.

Alice ergueu o tablet acima da cabeça e o desferiu com toda a força contra o rosto de Seu Paulo, acertando-o na testa, bem acima da sobrancelha esquerda.

Seu Paulo tombou para o lado, batendo os dentes contra o braço da cadeira e caindo de barriga no chão, capotando aos pés da escrivaninha.

Fernanda, gritando de susto, foi escorar-se na divisória central, toda encolhida e de mãos no rosto, querendo fugir dali.

Carolina apoiou-se na maçaneta, de olhos arregalados e coração palpitante, respirando com dificuldade pela boca, tentando recuperar o fôlego. Nem tanto pelo golpe desferido contra Seu Paulo, e mais pela figura de Alice.

Pois Carolina, testemunhando esta repentina violência, e reparando novamente no símbolo da Café com Leite desenhado no boné do zueiro, conseguiu se lembrar. Política assistencialista, glorioso sul, acéfalo, injúria aos nordestinos... ela conhecia essa linguagem.

Na seção de comentários do seu vlog, já se deparara com expressões semelhantes. Eram muito usadas pela classe média paulistana e sulista. Em especial pelos estudantes de direito, medicina, enfermagem e nutrição, que, naquele tempo, eram ávidos por uma revolução à la francesa.

Sim, muito comum a eles.

Aos Patriotas Bolsonários.

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Novo capítulo dia 30/07, as 22:00, horáro de Brasília.

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