Segundo pensava, não era criancinha. Não precisava ser tratada com tanto zelo. Sabia que Fernanda precisava de ajuda extra. Ninguém precisava empurrá-la daquele jeito.
Com o orgulho ferido, tentou soltar-se da gerente, dizendo com toda a paciência:
— Alice, está amarrotando minha manga outra vez.
— Oh, desculpa! Eu não vi o qu...
— Não viu o que estava fazendo. É, eu sei.
— Aqui, segure meu tablet. Vou desamassar sua camisa.
— Tudo bem. Eu mesma faço isto.
Alice, chateada com a recusa, mas ainda admirando a fisionomia da vlogueira, disse:
— Eu já falei que você ficaria melhor de lilás, em vez de vermelho?
— Na verdade, já.
— É que lilás combina melhor com seus...
— Com meus olhos verdes. Eu sei. Também já me disse isso.
Carolina, olhando para sua manga amarrotada, começou a esticar e alisar o tecido, pensando:
“Pronto? Já terminou de brincar de boneca comigo? Podemos voltar a sermos adultas? Ou talvez você também queira bater uma selfie, só para, em seguida, me exibir aos seus parentes e colegas?”
Alice, lembrando-se do porquê de tê-la trazido junto, perguntou:
— Você garante que Seu Paulo é o Procriador Veterano?
— Sim. Pelo menos, foi o que o rastreador me indicou. Além disso, enquanto discutíamos na portaria, mandei algumas indiretas para ele, insinuando que ele era o Procriador.
— E?
— Bem, pelo jeito como ele me respondeu, eu diria que a carapuça serviu.
— Olha, eu acredito em você. De verdade. Mas antes de continuarmos, poderia rastreá-lo novamente? Só para garantir que não cometerei uma injustiça?
— Não, tudo bem. Muito embora eu admita: não sei o que pretende fazer.
Carolina retirou o celular do bolso e abriu a mensagem do Cowboy Recauchutado. Então, após clicar no nome Procriador Veterano, selecionou o comando Rastrear.
A tela exibiu um mapa do Parque Emam. A imobiliária Landschaft, representada como um quadrado cinza, foi posicionada no centro. Dentro do quadrado, piscava uma bola azul, indicando a localização de Carolina. Ao lado dela, piscava uma bola vermelha, sugerindo a localização aproximada do Procriador Veterano.
Em cima da bola, havia uma caixa de texto igualmente vermelha, contendo a mensagem:
Usuário Procriador_Veterano encontra-se a 8 metros de distância, na rua Niemeyer, Parque Emam, Londrina/PR.
Carolina mostrou a tela para Alice, dizendo:
— O que acha? Duvido que seja Renato, Dalborga ou mesmo Fernanda.
— Não sei. Renato parece ousado o bastante para fazer isso, só de brincadeira.
— Renato tem ousadia, mas não tem mal gosto. Se fosse para brincar comigo, ele me pegaria no colo e me carregaria até a praça pública, fingindo ser meu namorado. Ele gosta de constranger assim, ao vivo, e não apenas nas redes sociais.
— Espero que tenha razão. Caso contrário, eu teria de cortá-lo da empresa. Seria um... desperdício para todas nós.
Carolina, notando o duplo sentido desta afirmação, e reparando o uso do feminino em “todas”, cruzou os braços e pensou:
“Desperdício de talento ou de carne?”
Já Alice, voltando a si, continuou:
— De qualquer forma, deixe-me ver o perfil criado para você. Sabe, aquele criado no site de paquera.
Abrindo o navegador de internet, Carolina acessou o Clube do Cowboy Recauchutado e entrou no perfil dedicado a si. Então, com o perfil aberto, entregou o celular para Alice, deixando que ela o explorasse à vontade.
Nele se exibia uma foto de corpo inteiro da vlogueira, na qual ela posava junto a sua mountain bike elétrica, vestindo bermuda de ciclismo preta e camiseta de passeio azul.
Embaixo da foto, havia a seguinte lista:
Nome: Carolina Godoy de Vilanova
Idade: 20
Altura: 1,70m
Peso: 60 quilos
Pele: clara
Cabelo: liso e escuro
Olhos: verdes
Profissão: vlogueira
Hobby: ciclismo
Alice ficou assustada com o excesso de informações ali contidas. Especialmente por terem sido fornecidas por outra pessoa, não pela própria Carolina.
Apontando para a tela, perguntou:
— Como o Procriador sabe sua idade, peso e altura?
— Acho que ele descobriu no perfil do meu Bicadas. Quando fiz minha conta lá, forneci todas essas informações.
— Nossa, Carol! Pra quê? Não achei que fosse tão vaidosa!
— Não é vaidade. É só um... tique nervoso. Detesto deixar formulários em branco. Sempre tento preencher tudo, e só quando julgo inofensivo.
— Mas Carol, fornecer esse tipo de informação em redes sociais nunca é inofensivo! Aposto que essa foto também foi retirada do seu Bicadas!
— Foi sim. Está no meu álbum.
— Mas você não bloqueou o acesso para pessoas não amigas?
— Na verdade, eu bloqueei.
— Então como ele conseguiu a foto? Como?
Alice, parecendo uma mãe coruja, falava como se repreendesse uma filha desatenta e inconsequente.
Carolina percebeu isto. E como não tinha lhe dado liberdade para opinar sobre sua vida pessoal, começou a detestar a censura. A companhia da gerente já estava ruim, por causa do puxão em seu braço. Agora, só tinha piorado.
Querendo lhe dar uma resposta que calasse sua boca, Carolina disse:
— Ele provavelmente me mandou uma solicitação de amizade nesta semana, ou semanas atrás, ou meses atrás. E eu provavelmente aceitei, pensando se tratar de algum fã do meu vlog.
— Aí está o problema: você aceita qualquer pessoa no seu perfil. Nem verifica quem é, de onde é e como te conheceu!
— Entenda, Alice: meu perfil no Bicadas não serve para uso pessoal, e sim para uso publicitário. Se eu compartilhar alguma informação pessoal, ou alguma foto do meu dia a dia, é porque estou tentando divulgar minha imagem como vlogueira, e não porque sou exibicionista, insensata ou carente de atenção.
— Para uso publicitário, é?! Então por que bloqueou o acesso para os não amigos?
— Porque, desse jeito, eu forço as pessoas a me adicionarem ao seu Bicadas. Isso ajuda a aumentar meu número de contatos.
— ...
— Que foi?
— E depois me diz que não é carente por atenção.
— E não sou! Eu não quero aumentar meus contatos por carência, nem por vaidade. Se você não sabe, para quem vive de patrocínio, esses contatos representam o ganha pão, porque os patrocinadores, obviamente, só investem nos comunicadores que tiverem uma grande audiência.
— Se é assim, diga-me: tem algum Procriador Veterano no seu Bicadas?
— Hmm, quer saber? É uma boa pergunta.
Embora odiasse satisfazer a curiosidade de Alice, Carolina tomou o celular de suas mãos e acessou sua conta. Também desejava saber se havia alguém com esse nome na sua lista de contatos.
Mas antes de clicar no prompt de pesquisa, notou que havia uma nova notificação. Alguém chamado Paulo Vida Loka mencionara seu nome numa publicação, que fora postada há aproximadamente 30 minutos.
Era escrita com Caps Lock e com vários erros de ortografia, dizendo:
ACABEI DEVE A TAU @Carolina_Godoy! NAO SEI OQUE VCS VE NELLA! E FEIA, E BURA, NAO SERVI NEM PA ISPANTA MUSQUITO! HUEHUE!!!!
Levou um minuto para Carolina entender isto, traduzindo-a para o seguinte desaforo:
Acabei de ver a tal Carolina. Não sei o que vocês veem nela. É feia, é burra e não serve nem para espantar mosquitos. (Risada zombeteira de internauta brasileiro, daquele tipinho digno de ser torturado, e que pensa estar protegido pelo antigo anonimato da internet)
A foto de Paulo Vida Loka era a mesma do Procriador Veterano: a caricatura de um garoto mulato, careca, com dentes frontais separados e olhos esbugalhados. O conhecido emblema da tribo urbana Zuera Never Ends.
Como o tal Vida Loka estava adicionado aos contatos de Carolina, ela tinha acesso ao seu álbum de fotos. Clicando no ícone de um porta-retratos preto, deparou-se com várias imagens do próprio zueiro, Seu Paulo. Posava sorridente e com a língua de fora, exibindo o polegar e o mindinho esticados, em gesto de surfista. As localidades variavam entre campos de futebol, churrascos em fundo de quintal e aulas de zumba em academias azulejadas.
Confirmando a identidade do ofensor, e remoendo os insultos lançados a si no Bicadas, bem como no Cowboy Recauchutado, Carolina pegou no braço de Alice e puxou-a em direção à central de vendas, esquecendo-se do respeito a sua hierarquia, e resmungando ferozmente:
— Não sei você, mas eu não preciso de novas confirmações! Mais provas do que isto, só ressuscitando o próprio Sherlock!
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Novo capítulo dia 27/07, as 22:00, horáro de Brasília.
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Compilação dos capítulos 17 a 33 disponível gratuita no Smashwords e Itunes.
