Renato, bem confortável em sua cadeira, ciente de que nada disto lhe dizia respeito, ficou apenas assistindo ao que aconteceria. Olhou do trio feminino para Seu Paulo, querendo entender do que se tratava aquela explosão de testosterona.
Alice, lembrando-se da ofensa enviada à Carolina através do Clube do Cowboy Recauchutado, olhou severa para as mãos e lábios do zueiro. Queria muito amputar-lhe os dedos e a língua, impossibilitando-o de usar teclados ou comandos de voz. Desta forma, ele nunca mais enviaria mensagens daquele tipo à vlogueira, ou a qualquer outra mulher.
Carolina, ainda voltada para a janela, amargando, de braços cruzados, a simpatia indesejada dos Patriotas Bolsonários, foi trazida de volta à realidade, graças à inconveniência escandalosa de Seu Paulo. Uma inconveniência que, embora menor quando comparada a do grupo extremista, não deixava de ser irritante.
Virando-se para ele, ficou reparando em suas vestes e acessórios, tentando avaliar o preço de sua camisa polo Crocodilo Tenista e do seu tênis de corrida Aquático Wave. Como ser humano, ele não lhe servia para nada. Mas como indenizador de danos morais, talvez representasse uma bolada.
Fernanda, por sua vez, foi conciliadora. Deixou de lado a conversa com Carolina e assumiu sua postura de promotora de publicidade, devolvendo o tablet à Alice e puxando a barra da baby look para baixo, desenhando ainda mais os contornos dos seus seios.
Dirigindo-se ansiosa até a porta, ficou posicionada entre Seu Paulo e a cafeteira automática, pegando no braço dele e dizendo:
— Pelo sangue de Cristo, Seu Paulo! Desculpa pela demora! Juro que eu já estava voltando para atendê-lo.
O zueiro, prestes a anunciar seu rompimento com a Landschaft, e querendo fazê-lo na frente do maior número de pessoas possível, achando que, desta forma, sairia dali vitorioso, fosse qual fosse a batalha que presumia estar travando, viu-se desarmado pelo perfume de Fernanda. Sua fragrância de cerejas, quente e excitante, exalando de dentro do farto decote, conseguiu demovê-lo do rancor.
Tanto que, motivado pela cabeça de baixo, desistiu de romper com a empresa. Pois, na presença da promotora, seu sangue fluía para... lugares diferentes, fazendo com que, naquele instante, seu abandono na central de vendas não parecesse tão ofensivo.
Porém, ainda se recusando a descer do salto, resmungou dizendo:
— Faz meio século que estou mofando naquela sala, ôh potranca! Que atendimento pé de chinelo é esse? Aposto que se fosse algum chegado seu, você já estaria de quatro dizendo “quando quiser”!
— Heh, o senhor é um verdadeiro salmista. Nunca reparei na sua língua abençoada. Onde aprendeu a falar assim?
— É de berço, minha piriguete. No educandário da vida, a família é tudo.
— Aposto que, falando desse jeito, o senhor consegue causar uma grande impressão nas mulheres.
— É como os manos dizem: é fácil me conhecer, e ainda mais difícil me esquecer.
— Sim, difícil. Muito difícil. Mas venha comigo. Vou tratá-lo como merece.
— Agora senti firmeza, novinha. E vamos ligeiro, porque tenho outros bagulhos para resolver.
— Entendo. Quanto empenho em sustentar seu estilo de vida, Seu Paulo. Imagino que tenha muito orgulho de si.
— Opa, é nóis! Pois, no final das contas...
E nesta hora olhou para Carolina, encarando-a feito um competidor num campo de futebol, e sorrindo como se tivesse a vantagem no jogo, dizendo:
— ... a zuera never ends. Hue hue!
Fernanda, desistindo de esperar por Alice e Carolina, foi andando na frente, ganhando acesso ao estúdio de gravação. De lá, virou à direita e seguiu para a central de vendas, resignada com os desprazeres da sua ocupação, e com o fardo daquelas roupas apertadas.
Seu Paulo, olhando detidamente o rebolado do seu quadril, e pouco preocupado em ofendê-la com tamanha indiscrição, disse:
— Ah leléqui!
Ambos se retiraram da redação, deixando a porta aberta.
Renato, ainda sentado em sua cadeira, quieto e atencioso, trocou olhares sugestivos com Carolina, como se quisesse lhe dizer “algo precisa ser feito. Ele não pode escapar assim.”
Do outro lado da sala, sentado numa das duas escrivaninhas isoladas, encontrava-se um dos âncoras do jornal comunitário. Tinha ouvido a conversa entre Seu Paulo e Fernanda, reparando o tempo todo no tratamento dispensado à promotora, e revoltando-se com cada palavra.
De rosto severo, perguntou à Alice:
— É brincadeira, né?! Só pode ser brincadeira! Que vá sentar no colo do capeta! Você vai deixar que fique assim?
— Calma, Dalborga. Vou resolver isso agora mesmo. Eu já tinha um assunto pendente a tratar com ele.
— Assim espero, pois se você não for, eu vou! Isso foi a maior putaria! E na frente da menina nova, a Carolsinha. Repito: putaria!
Carolina baixou a cabeça e sufocou o riso, achando graça no diminutivo zeloso dedicado a si. Olhou para Renato e viu que ele se debruçara sobre a mesa, escondendo o rosto sobre os braços, rindo até soluçar.
Alice, bem menos humorada, sedenta por justiça com as próprias mãos, puxou Carolina pelo braço novamente, dizendo:
— Vamos lá. Quero que você esteja presente.
— Tudo bem. É nóis.
— Por favor, não fale assim! Nem de brincadeira!
— Heh.
Entraram no estúdio de gravação, fechando a porta atrás de si, devolvendo a redação à normalidade.
Enquanto isso, César Garcia, o estagiário de publicidade, encontrava-se sentado na outra ponta da estação de trabalho, completamente oposto ao lugar reservado à Carolina, de costas para a janela. Estava relendo uma mensagem de celular, que fora recebida dez minutos atrás, antes de Fernanda, Alice e Carolina aparecerem.
Foi enviada por Marcelo e dizia apenas:
Seu pacote chegou. Como combinado, não contei a ninguém. Ficarei no aguardo daquele espetinho de kafta com cerveja gelada.
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Novo capítulo dia 23/07, as 22:00, horário de Brasília.
