sábado, 19 de julho de 2014

35 - O presente que o diabo embrulhou

Na estação de trabalho, o lugar de Carolina se localizava no canto da mesa. Ficava de frente com a janela, de costas para a ilha de edição e imediatamente ao lado da porta do corredor.

Tinha uma gaveta, uma cadeira ergonômica igual a de Renato e uma bobina de acoplamento magnético instalada na divisória central, do tamanho de uma pilha AA, que substituía a tomada de três pinos.

Por meio desta bobina, era possível recarregar o celular, o tablet ou qualquer outro aparelho eletrônico ao seu alcance, sem a necessidade de um cabo, bastando apenas aproximá-los de sua ponta arredondada de cobre. Seu campo magnético faria o resto, transferindo a energia da bobina para o aparelho visado.

A mesa de Carolina estava limpa, com exceção de um pacote encostado na divisa lateral. Tinha o tamanho de uma caixa de tênis e estava embrulhado com papel de presente, todo listrado de verde, vermelho e amarelo. No topo, era enlaçado por uma fita dourada, cujo nó se escondia atrás do brasão do Rio Grande do Sul.

Quando entrou na redação, Carolina estava distraída demais para notar o embrulho. O puxão de Alice a incomodara, e a perspectiva de reencontrar Seu Paulo, com quem poderia ter um novo confronto, também roubara sua atenção.

Porém, quando viu aquele brasão gaúcho depositado em sua mesa, e justo após terem a chamado de “princesinha dos Patriotas Bolsonários”, foi incapaz de se mexer. Arrepiou-se com o que poderia haver no pacote, bem como o motivo de ele estar ali. Tanto que, num instante, esqueceu-se do seu dever com Fernanda.

Colocando a mão na testa, e sem esconder o desgosto, perguntou a Renato:

— Por que tem um pacote farroupilha na minha mesa?
— É presente dos seus fãs.
— Pff, fãs! Que tipo de fãs são esses?
— Do tipo carinhoso e caprichoso, ora.
— Sim, com certeza são caprichosos. E não estou falando no bom sentido!
— O que foi? Nem abriu o presente e já quer jogá-lo fora, marreco?
— Bem, vamos colocar assim: de vez em quando, a capa do livro já basta para julgar seu conteúdo.
— Heh.

Renato, girando em sua cadeira, olhou para o pacote e acenou para o brasão gaúcho, zombando aos risos:

— Está brava por causa da origem dele?
— Acho que nós dois sabemos o porquê da minha braveza.
— Eu sei, é?!
— Se você está me chamando de princesa bolsonária, é porque sabe, tanto quanto eu, quem enviou o presente. Ou, pelo menos, o tipo de gente que o enviou.

Alice, que era casada com um porto-alegrense, ficou chateada. Do jeito como falavam, era como se Carolina tivesse birra de gaúchos. Se fosse assim, não poderia apresentá-la ao seu marido, nem torná-la uma visita frequente em sua casa, tanto quanto pretendia.

Desejando invalidar sua suspeita, perguntou:

— Carol, você não gosta de gaúchos?
— Olha, não vou negar: eu estranho muito eles.
— Por quê?
— Porque continuam investindo numa polícia especial contra visitantes de outros Estados.
— Ah, isso? Eles só estão fazendo controle de pestes na fronteira.
— Aff, não mesmo!
— Mas foi o que falaram para a Seja.
— Sei. Uma polícia que testa seu conhecimento de português, antes de autorizar sua entrada no Estado? E que foi instituída após o aumento da imigração haitiana no Brasil, décadas atrás?
— Não entendo. O que está insinuando?
— Alice, sério: de que pestes você acha que eles estão falando?
— Não sei. Peste negra?
— Por Deus, foi uma pergunta retórica!
— Oh, desculpa! Você perguntou como se quisesse uma resposta.
— Gente, por favor, não falem desse jeito perto de mim! Eu já estou queimada demais!

Fernanda, até então impaciente, só esperando que as três retomassem a caminhada até sua mesa, estranhou a reação de Carolina. Não entendia sua implicância com o pacote.

— Qual o problema, Carolina? Os donos do presente me pareceram educados, quando o entregaram a mim.
— Como é? Foi você quem deixou o presente na minha mesa?
— Sim.
— Então você conhece as pessoas que o entregaram?
— Não. Eu topei com eles sem querer na portaria, enquanto vinha trabalhar. Eles queriam entregá-lo a você pessoalmente, mas você não tinha chegado. Então, antes de eu subir no elevador, Marcelo me chamou e me pediu para deixá-lo aqui.
— E quem são eles, afinal?!

Renato, erguendo uma sobrancelha, disse:

— Como se você já não soubesse.
— Talvez sejam "eles", talvez não sejam, Renato. Não custa nada confirmar.
— Confirmar o quê? O brasão e as cores do embrulho já dizem tudo.
— ...

Fernanda, ainda mais confusa, perguntou à Carolina:

— Do que vocês estão falando?
— De cobras e lagartos.
— Quê?
— Diga-me: como eram essas pessoas?
— Bem, era um grupo de três universitários. Duas meninas e um garoto. Eles estavam indo para a faculdade federal, pelo que percebi.
— Algo mais?
— Não, só isso. Era um grupo animado e amigável. Até tiraram selfie comigo.
— Selfie? Mas você disse que não os conhecia.
— Pois é, não os conheço. Por isso eu disse: são animados e amigáveis. Mal nos conhecemos e já fizemos amizade. Tanto que me chamaram pra sair.
— Fernanda, acho que estavam te passando um trote. Ou isso, ou são carentes por amizade.
— Por quê?
— Porque ninguém é tão camarada assim. Pelo menos, não após ter acabado de conhecer a pessoa.
— Eles são religiosos. O que você queria?
— Hmm, deve ser uma religião nova, porque os católicos e os evangélicos são panelinhas demais para se enturmarem desse jeito.
— Na verdade, você acertou. É uma religião nova.
— Mesmo? Qual?
— Essa que você e o Renato falaram. A Bolso-não-sei-o-quê.
— ...

Carolina ficou paralisada. Olhou para Fernanda de boca aberta, como se um tornado viesse em sua direção.

— Pode repetir?
— Eles são da Bolso-não-sei-o-quê que vocês estavam falando.
— Bolsonários?
— Acho que sim.
— Patriotas Bolsonários?
— Exato. Esse nome aí.
— Como sabe?
— Depois de bater o selfie, eles me convidaram para participar de uma reunião de célula.
— Tem certeza?
— Sim. Eles me disseram "nossa célula vai se reunir hoje, lá na Concha Acústica. Terá banda de rock e narguilé à vontade."
— ...
— É uma religião bem liberal, não acha?! Talvez seja baseada na igreja metodista.
— E você... aceitou o convite?
— Não. Disse que já sou da igreja católica, e que não poderia me comprometer com outra religião. E só pra constar: não somos panelinhas não, viu?!

Carolina não ouviu este último comentário. Nem teve vontade de rir de Fernanda, por ela ter interpretado tudo como se fosse religião. Confirmara suas suspeitas.

Sua cabeça estava tomada por um único pensamento: os Patriotas Bolsonários, reconhecido grupo extremista de direita, favorável à eugenia no Brasil, estava lhe enviando presentes E na mesma semana em que a Café com Leite, movimento cultural pró-diversidade, composto por membros sensíveis as opiniões dos outros, empenhava-se em torná-la uma semente da discórdia.

Sentindo a garganta apertar, Carolina cruzou os braços e olhou para a paisagem na janela, pensando:

“Esse será meu legado? A vlogueira que agradou o grupo dos intolerantes, e que também desagradou o grupo que, historicamente, será reconhecido como o herói do povo? Essa merda toda já está perdendo a graça!”

A porta que levava ao estúdio de gravação se mexeu, abrindo caminho para Seu Paulo, o velho zueiro. Estava tomado de raiva e rancor, indignado por terem o deixado sozinho na central de vendas.

Tão logo avistou Fernanda, Alice e Carolina juntas, disse:

— Ah, leléqui! Agora vocês vão ver!

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Novo capítulo dia 20/07, as 22:00, horário de Brasília.