sábado, 12 de julho de 2014

32 - Miguxês gerenciado

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Fernanda não gostava de resmungar com os outros. Seu coração era mole demais para aguentar a frieza que, geralmente, vinha após uma bronca.

Além disso, mesmo sendo para desencargo de consciência, e não para remediação de uma injustiça, detestava pedir desculpas à pessoa censurada. Sempre se obrigava a fazê-lo, e sempre sentia a mesma coisa: ingrato rebaixamento, como se engolisse um sapo por quem não merecia.

Porém, naquela manhã de sexta-feira, um dia antes do Dia do Trabalho, ela estava possessa. Seu Paulo, um dos seus clientes mais importantes, estava ofendido com as palavras de Carolina, crente de que ela, durante a discussão na portaria, questionara sua sexualidade.

Cabia a ela, a formosa promotora de publicidade, convencê-lo a continuar divulgando com a Landschaft, utilizando-se de mimos conciliadores que o demovessem de sua braveza. Muito semelhante ao tratamento dispensado a uma criança emburrada.

Logo, ao notar que Alice estava alheia a esta situação, e que se interessava mais em tagarelar com a vlogueira do que liberá-la para o trabalho, viu-se em posição de confrontar sua autoridade, dizendo irritada:

— Alice, essa conversa não pode esperar? Temos um problema muito maior para resolver! E você sabe disso, pois ajudou a torná-lo ainda pior!

Alice detestou ouvir isto. Além de censurá-la, Fernanda também a chamou de problemática. Era uma mancha em sua imagem pessoal. E fez isto na frente de Carolina, a funcionária com quem, até então, tivera pouco contato, e que, numa única conversa, conseguiu encantá-la pelo resto do dia.

Momentos atrás, quando a vlogueira chamou-a de conivente, Alice preferiu ser amigável. Estava presa ao encanto dos seus olhos hortelãs, portanto levou isto na esportiva. Não queria despertar antipatias entre elas.

Fernanda era um caso diferente. Seu corpo de bailarina malhada, 100% aceitável num programa de auditório, todo delineado pelo uniforme indiscreto, deixava Alice insegura quanto a sua feminilidade. Uma insegurança que a obrigava a reparar no tamanho dos seus peitos, tentando involuntariamente compará-lo ao tamanho dos próprios.

Também amargava o comprimento de suas coxas carnudas, lamentando que as dela, órfãs do acompanhamento de um personal trainer, estivessem deformadas pela celulite.

Estar junto da promotora não era um conforto: era uma competição desleal. Diminuía sua autoestima e lembrava-lhe sobre a vinda da meia-idade. E o fato de seus resmungos estarem interrompendo a conversa com Carolina, que no momento era a companhia favorita, não tornava Fernanda menos desagradável. Antes, conseguia torná-la mais insuportável.

Como tal, seguindo o exemplo da maioria dos gerentes de Londrina, que frequentemente se deixavam levar pelo poder do seu cargo, tentou fazer o que sabia de melhor: impor respeito hierárquico.

— Fernanda, eu também estou resolvendo um problema sério com Carolina. Esta conversa não pode esperar. Então seja breve em me responder o segunite: como piorei seu problema, seja ele qual for? Pois eu mesma não sei do que está falando.
— Estou falando de você ter rido da cara do Seu Paulo, justo depois de Carolina tê-lo irritado no térreo.
— Ah, Fernanda! Isso é sério? Ele aparece usando óculos amarelo e aparelho dentário verde, e eu não posso rir?
— Mas foi a maior falta de respeito, Alice. Ele não gostou disso. Agora tá todo nervoso na minha mesa, pronto pra cancelar o contrato conosco.
— Se ele quer se fazer de palhaço, eu vou tratá-lo como palhaço. E afinal de contas: o que é leléqui?

Alice, relembrando a aparência e a voz de Seu Paulo, começou a rir. Olhando para Carolina, perguntou:

— Ele também disse leléqui pra você?
— Sim. Quando ficou nervoso comigo, ele disse: se a Fernanda não fizesse uma propaganda tão boa para minha loja, vocês nunca teriam meu dinheiro! Ah, leléqui!

Incapaz de se controlar, Alice explodiu em gargalhadas, perdendo toda a compostura. Não tinha medo de aborrecer Fernanda: estava mais interessada em se mostrar divertida para Carolina, como se esses risos esganiçados fossem sinônimos de diversão, não de vergonhoso escândalo.

Já Carolina, agora de frente com Fernanda, estava mais atenta ao manequim de suas vestes. Percebendo o quanto aquelas roupas eram apertadas, lembrou-se que Seu Paulo pertencia ao Cowboy Recauchutado, clube masculino tarado por mulheres jovens, ou por transexuais engana-rolas, como diriam os extremistas do Patriotismo Bolsonário.

Erguendo uma sobrancelha, pensou:

“Não quero desmerecer o trabalho de ninguém, mas não me admira aquele zueiro elogiar tanto a Fernanda. Calça justa, baby look e curvas perigosas são a receita brasileira de um atendimento de sucesso. Eu não queria que fosse assim, mas... o que posso fazer? O mundo não atende as minhas preferências.”

Fernanda, tentando trazê-las de volta ao assunto em questão, disse enraivada:

— Gente, não tem a menor graça! Estamos prestes a perder o Seu Paulo, e tudo por culpa de vocês! Ficam aí brincando, só tirando sarro, enquanto eu me ferro! Sabe quem levará a culpa por tudo isso? Eu! Vão dizer que eu não soube negociar!

Alice ainda estava risonha. Como não tinha boa vontade com Fernanda, não tentou ajudá-la. Em vez disso, resolveu ignorá-la, perguntando à Carolina:

— O que é leléqui?

Falava como se fossem amigas de longa data, e como se ambas desejassem retornar à privacidade anterior.

Carolina, por sua vez, não quis ignorar Fernanda. Além de ser educada demais para fazer isto, também reconhecia sua responsabilidade no problema com Seu Paulo.

Então, querendo incluir a promotora na conversa, mas sem deixar a pergunta de Alice no vácuo, disse:

Leléqui é um jargão de educandário. Serve para expressar surpresa, indignação ou saudação. Seria o equivalente a minha nossa!, meu deus do céu! ou gostei de ver! Seu Paulo fala desse jeito e se veste com aqueles acessórios porque fazia parte da Zuera Never Ends, aquela tribo urbana nojenta de vinte ou trinta anos atrás.
— Você é tão esperta, Carol. Como sabe de tudo iss...
— Fernanda, ele está te esperando na sua mesa?

Fernanda balançou a cabeça em sinal afirmativo, surpresa em ver que Carolina cortara Alice. Aproveitando a oportunidade, disse:

— Ele quer cancelar o contrato conosco. Está muito bravo com o que aconteceu hoje. Eu vou tentar segurá-lo oferecendo um novo benefício, mas eu preciso da sua ajuda, Carol.
— Quer que eu vá me desculpar?
— Sim, isso também.
— Nada feito. Se quiser, aceito conversar com ele de novo, tendo você como mediadora. Mas eu não vou pedir desculpas, porque não fiz nada de errado.
— Carol, por favor, reconsidere.
— Por favor digo eu, Fernanda. Primeiro: eu não falei nada sobre a sexualidade dele. Eu só disse que o Marcelo o admirava. Foi um elogio, não uma ofensa. E segundo: quem deveria se desculpar era ele, porque não apenas me chamou de racista, como também disse que sou azeda demais para ser chupada.

Alice, esquecendo-se de que fora cortada, não conseguiu engolir essa última parte. Olhando severa para Carolina, perguntou:

— Como é?
— Aqui, vou te mostrar.

Retirando o celular do bolso, Carolina acessou seu e-mail e clicou na pasta de mensagens recebidas. Então, abrindo a mensagem do Clube do Cowboy Recauchutado, entregou o celular para Alice dizendo:

— Eu rastreei o usuário Procriador Veterano. Ele é o Seu Paulo.

Alice, após ler o comentário enviado ao perfil de Carolina, ficou dividida entre a raiva assassina por Seu Paulo e a decepção com a vlogueira. De primeira, imaginou que fosse ela quem criara a conta no site.

— Por que você tem um perfil nessa... coisa?
— Não fui eu quem o criou. Foi o próprio Seu Paulo. Todos os membros do clube podem enviar fotos de qualquer mulher, à vontade.

Fernanda, não gostando do rumo da conversa, perguntou:

— Tem certeza? Como sabe que foi ele?
— Recebi um e-mail de boas-vindas do próprio clube. Lá está escrito que foi o Procriador Veterano quem fez isto.

Antes de Fernanda continuar, Alice pegou Carolina pelo braço e disse:

— Vem comigo. Você também, Fernanda. Vamos resolver o assunto. 

* * * *

Novo capítulo dia 13/07, as 22:00, horário de Brasília.