quarta-feira, 9 de julho de 2014

31 - A trindade dos tolos

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Alice estava gostando da conversa com Carolina. A história do avô ucraniano era interessante, e a análise sobre a demanda por documentários interativos era admirável. Sua presença tornava a Landschaft um ambiente inovador e estimulante.

Mesmo se sentindo contrariada com sua opinião sobre a Narcisa & Brizola, bem como a afirmação de que ela, Alice, estava sendo conivente em relação à mensagem do e-mail, ainda pensava estar na companhia de uma garota alerta, inteligente e bem cuidada, cujos longos cabelos escuros, caídos sobre os ombros, desenhavam uma face charmosa e invejável, digna de ostentação.

Ou, na opinião de Alice, digna de ser exibida aos outros, como quem diria em soberba satisfação “ela é linda e está dando atenção a mim. Fiquem chupando dedo, porque eu sim tenho liberdade para falar com ela, não vocês.”

Era um dos esportes da sociedade brasileira: competir pelas companhias mais atraentes. Não apenas no amor, mas também nas amizades. Aquele que as conseguisse, deveria declarar sua vitória em espaços públicos, desfilando para cima e para baixo com seus troféus de carne, como se caminhassem entre os corredores de um hospital público, exibindo sua saúde aos enfermos ali internados.

Logo, quando Fernanda chamou por Carolina, interrompendo a conversa das duas, Alice ficou enciumada. Ainda não queria se afastar da vlogueira, e muito menos entregá-la aos cuidados de outra colega de trabalho. Especialmente quando ela, sendo a gerente de RH, trabalhava no escritório do 1° andar, longe do audiovisual, e portanto distante da mesa de Carolina.

Erguendo a sobrancelha, usou de sua autoridade para dizer:

— Ainda estamos conversando, Fernanda. Depois você fala com ela.

Fernanda, na impaciência dos seus 21 anos, não quis esperar. Ficou olhando de Carolina para Alice, empinando o quadril e colocando a mão sobre a cintura, tentando intimidá-las com sua presença, pensando que, desta forma, iria forçá-las a encerrar o diálogo.

Como promotora de publicidade, o RH a tratava igual a uma fachada de loja. Deveria se apresentar bonita e chamativa todos os dias, atendendo ao padrão londrinense de receptividade comercial. Os valores deste padrão eram homogêneos, portanto não poderia ser diferente: Fernanda era loira, alva e esbelta, dona de 92 cm de busto e 104 cm de quadril, parecendo mais uma assistente de palco do que uma atendente.

Pela norma da empresa, era obrigada a vestir uma calça bailarina preta com friso lateral branco, tão escandalosamente reveladora quanto uma pintura corporal. Também vestia uma camiseta baby look azul clara, agarrada ao seu corpo como um político corrupto abraçado ao seu dinheiro desviado, tendo estampada, na altura do peito, o logotipo praiano da Landschaft.

Ficou parada ali, segurando a maçaneta, ouvindo Alice dizer à Carolina:

— De acordo com o artigo da Seja, você defendeu as clínicas de estética embrionária. É verdade?
— Não. Eu só respeitei a decisão de quem se consulta nessas clínicas, dizendo que, num país democrático, todos tem liberdade de se consultarem nelas, se assim desejarem. Não disse nada sobre ser a coisa certa a se fazer, e nem incentivei os internautas a buscarem o serviço. Também não questionei a moralidade do ato, porque eu mesma não tenho opinião formada.
— Então por que mencionou a clínica Batismo de Lázaro?
— Foi só pelo contexto. Eu não comecei a falar sobre estética embrionária assim, do nada. Eu estava respondendo a pergunta de um dos internautas, que queria saber o que eu pensava sobre ter minha foto disponível como modelo na Batismo de Lázaro.
— Bem, parece que você se expressou do jeito errado, pois está causando uma série de maus entendidos.
— Heh, só pode ser piada.
— O que foi?
— Carlos me disse a mesma coisa, cinco minutos atrás. De acordo com ele, eu me expressei mal com um dos nossos clientes de publicidade, que agora está bravo comigo.
— Está falando do Seu Paulo, não é?! Eu estava junto dele e do Carlos quando vocês conversaram pelo telefone.
— Ótimo. Você está por dentro do assunto. Então vou te falar o que você não ouviu, em resposta ao que você acabou de me dizer: não sou eu que me expresso mal, e sim eles que me entendem errado.
— Tem certeza? Eu pensaria de novo, se fosse você.
— Por quê?
— Porque essa resposta é muito conveniente. Por meio dela, você coloca a culpa nos outros e evita de reconhecer os próprios erros.
— Alice, eu não sou burra. Pelo menos, não na frente das câmeras. Fiz três anos de Comunicação Jornalística e passei a adolescência inteira brincando de fazer vlogs. Eu sei dizer o que quero dizer, e sem deixar margem para confusão. Além disso... sinceridade? Mesmo sendo brasileira, não sou chorona e mimada. Não fico apontando o dedo para os outros, só para fugir de minha culpa. Se eu tivesse algum erro a reconhecer, seria mulher o bastante para fazê-lo. Mas acontece que, no caso da Seja, o problema realmente não está em mim, e sim nela.
— É o que você diz, mas... o colunista da Seja pensa exatamente o mesmo, só que ao contrário. Qual seria sua defesa?
— Alice, entenda o seguinte: a bronca da Seja, bem como a dos colunistas da Rede Lobo e das lideranças da Café com Leite, não foi motivada pelo jeito como tratei do tema. Foi motivada pelo tema em si.
— Não entendo.
— Vou te explicar melhor. Estética embrionária é um assunto controverso, porque é facilmente confundido com eugenia. E a eugenia, no Brasil, é um bicho de sete cabeças, porque representa uma ameaça à multiculturalidade. É como falar de estupro perto de uma mulher, ou de parada cardíaca perto de um idoso: uma coisa chata e desconfortável, sendo preferível evitá-la. Não é um tema proibido, mas também mexe com muita gente. E como ainda não temos maturidade para encará-lo de frente, qualquer um que tente fazê-lo gerará reações exageradas da mídia e da opinião pública, justamente por sermos sensíveis demais ao assunto.
— Mas você sabia de tudo isso quando resolveu responder ao internauta?
— Eu sabia que era um tema sensível, mas não pensei que geraria tanta repercussão. Fui a mais sincera e imparcial possível, tentando levar em conta apenas os direitos garantidos por uma democracia. Em resumo, eu só disse “quem quiser usufruir do serviço, sinta-se à vontade, desde que assuma sua responsabilidade”.
— Bem, se você realmente falou desse jeito, eu não entendo o porquê de tanta polêmica. Até aqui, sua opinião me parece razoável.
— Sim, ela é razoável. Não poderia ser mais razoável do que já é. Foi como te falei: não sou eu que me expresso mal, e sim os outros que me entendem errado.
— Por outro lado, você foi imprudente. Sabia no que estava se metendo e, mesmo assim, resolveu seguir adiante. Esse assunto, pelo que estou percebendo, é um verdadeiro terreno minado.
— Eu sei. Daniel me disse a mesma coisa.
— Quem?
— O office boy do Seu Osvaldo.
— Ah, aquele moço. O dono da verdade.
— Huh?
— É o apelido que minha assistente deu para ele. Disse que ele tenta mudar a opinião dos outros na marra, e que sempre quer ter a última palavra na discussão.

Carolina se lembrou de quando o afastou da portaria, para forçá-lo a encerrar a discussão com Marcelo.

— É, eu já chamei a atenção dele para isso. Não posso dizer que sua assistente está errada. Mas o Daniel, pelo menos, é esperto. Ele também é sensível ao tema da estética embrionária e, mesmo assim, soube entender o meu lado. Não acha que sou preconceituosa, ou que defendo uma limpeza étnica.
— Bem, vocês são amigos, certo?!
— Somos. Converso com ele quase todos os dias, lá na lanchonete do Seu Osvaldo.
— É por isso que ele te entendeu. Acho que ele fez um esforço extra, só pra ficar de bem com você. Pois, se vocês não se conhecessem, ele provavelmente entenderia errado, igual ao Emílio Florentino.
— Mas Alice, eis a questão: eu não acho que a Seja entendeu errado.
— Não é o que está parecendo.
— Eu sei que não. Mas acho que, no fundo, eles entenderam perfeitamente bem o que eu disse, igual a você e ao Daniel.
— Do que está falando? Se fosse assim, não estariam te chamando de preconceituosa.
— Não estariam, caso não precisassem.
— O quê?
— Portal Seja, Rede Lobo, movimento Café com Leite: eu não acho que essa trindade de tolos seja tão burra a ponto de não me entender. Os três grupos são compostos por pessoas qualificadas. Pessoas com ensino superior, pós-graduação e mestrado. Gente que sabe como o mundo se move, e como a sociedade funciona. Eu admito que não gosto do que eles falam e escrevem. Porém, nem por isso subestimo sua inteligência. Mesmo sendo usada do jeito errado, essa inteligência faz as coisas acontecerem.
— Carolina, o que quer dizer? Que eles te chamam de preconceituosa de propósito, e que toda essa polêmica faz parte da vontade deles?
— É por aí.
— E por que fariam isso? No que você está pensando?
— Eles precisam me chamar de preconceituosa porque...

Fernanda, vendo-se completamente ignorada, e percebendo que sua pose não resultara em intimidação, resolveu interrompê-las novamente, resmungando indignada:

— Aham!! Com licença? Oi?


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Novo capítulo dia 12/07, as 22:00, horário de Brasília.