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Carolina ouviu a voz de Carlos vindo do headset. Com seu tom adulto, profissional e repreensivo, ele lhe disse:
— Seu Paulo está aqui comigo e tem uma queixa contra você.
— Eu não me lembro de ter feito algo contra ele, mas vou ouvir do mesmo jeito. Qual é a queixa?
— De acordo com ele, você... Bem, como vou dizer? Você questionou sua sexualidade.
— Eu fiz o quê?
— Foi como você ouviu.
Carolina
ficou pensando por alguns segundos, lembrando-se da incômoda conversa
que tivera com Seu Paulo. Tentou adivinhar o motivo desta queixa. Então,
quando relembrou o momento em que acobertou a mentira de Marcelo,
disse:
— Eu não questionei nada. Só disse que Marcelo o admirava, e que o considerava um exemplo de sucesso.
Marcelo,
até então sentado em sua cadeira, só curtindo a presença e a voz de
Carolina, ficou alarmado ao ouvir seu nome. Para ele, ser mencionado
numa discussão com a gerência era motivo de preocupação, não de alívio.
Com medo de que isto o envolvesse em problemas, sussurrou ansioso para a vlogueira:
— Hey, não me meta na conversa! Isso é entre vocês!
Carolina,
atestando a covardia crônica do segurança, e confirmando a opinião de
Daniel de que ele, de fato, era um pau mandado submisso, resolveu medir
suas palavras. Evitaria de mencionar o nome dele, mesmo sabendo que isto
jamais lhe custaria uma advertência, ou uma demissão por justa causa.
Carlos,
pouco interessado em levar a conversa adiante, mas também preocupado em
agradar Seu Paulo, um cliente importante do setor de publicidade,
tentou ser breve e justo. Querendo chegar a uma conclusão que
satisfizesse ambos os lados, disse:
— Parece que houve um mal-entendido. Você não se expressou direito.
— Eu me expressei muito bem. O ouvido dele é que não escutou direito.
— ...
— Mas já que tenho esta oportunidade, posso falar com ele agora?
— Pra quê? O que você quer dizer?
— Pedir desculpas.
— Hmm...
Carlos
estranhou o pedido. Carolina, dona de um orgulho indomável, não tinha o
hábito de se desculpar com as pessoas. Especialmente quando ela tinha a
razão. Ou, pelo menos, quando ela pensava ter a razão.
Porém, julgando ser uma tentativa dela de preservar o emprego, deu-lhe um voto de confiança dizendo:
— Tudo bem. Estou passando o telefone para Seu Paulo.
Marcelo,
ainda atento à vlogueira, ficou assustado. Viu Carolina exibir o
sorriso mais diabólico de todos, como se fosse uma gata perseguindo um
rato de esgoto.
Do headset, ouviu-se a voz de Seu Paulo, que dizia com soberba e satisfação:
— Alô?
— Seu Paulo? É Carolina. Só quero lhe dizer uma coisa.
— Sim?
—
Me desculpe por ser tão azeda, a ponto de o senhor não querer me
chupar. Quando o juiz decidir a meu favor, te obrigando a me indenizar
por danos morais, prometo ficar mais doce e apetitosa.
— ...
O
fone emudeceu, indicando o fim da ligação. Carolina, ainda sorrindo
feito o diabo, retirou o headset e o devolveu para Marcelo, dizendo:
— A emoção foi tão grande que ele até desligou.
Então,
afastando-se do balcão, pronta para o que poderia ser seu último dia de
trabalho na Landschaft, finalmente seguiu para o elevador de
funcionários. Estava admirada com a falta de tato do idoso zueiro.
“Ele
me acusa de racismo, agride minha honra feminina, insinua vir atrás de
mim no futuro e, no final, tenta transformar meu comentário elogioso
numa ofensa. É sensível, paranoico, desrespeitoso e não fica feliz com
nada. Ele está na cidade errada: é o jornalismo paulistano que tem
carência deste tipo de perfil.”
Carolina entrou no elevador e
apertou o botão do 2° andar, deixando para trás um Marcelo confuso,
intimidado e tão assustado que nem sabia onde esconder o rosto.
Quando
a porta do elevador se fechou, a portaria recebeu um novo visitante. E
não se tratava de um cliente ou funcionário: era um drone voador da
distribuidora Tech Expresso.
O drone era redondo como uma bola de
basquete, revestido com fibra de carbono preto e equipado com uma
câmera de 66 megapixels, do tamanho de uma borracha escolar. Quatro
hélices o mantinham a três metros de distância do chão, locomovendo-o da
porta de entrada até Marcelo. Duas garras mecânicas depositaram um
pacote quadrado e vermelho sobre o balcão.
No destinatário do pacote, estava escrito:
Para César Garcia.
