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César, ainda aguardando o elevador descer, não estava no melhor
dos humores. Segundo entendeu, não apenas perdeu a discussão contra
Carolina, como também foi diminuído em seu ambiente de trabalho.
Era
como interpretava a conversa com Carolina: uma briga entre dois
desafetos, não uma troca de sugestões entre colegas de equipe.
Talvez Carolina tivesse razão em lhe dizer “não fui contratada para melhorar a infraestrutura do estúdio”.
Afinal, ela tinha o direito de defender seu desempenho como vlogueira,
bem como de apontar os verdadeiros responsáveis pela má qualidade do
vídeo.
E César, com toda a educação, até poderia aceitar sua
ideia de falar com Carlos. Cabia mesmo a ele, o gerente de audiovisual,
oferecer um equipamento melhor aos seus funcionários.
Porém, no
ambiente de trabalho londrinense, não era assim que a banda tocava. Por
lá, assim como no resto do país, ou você concordava com o que estava
sendo dito, ou inventava uma desculpa para não opinar.
Mesmo que
fosse uma sugestão inteligente, sensata e praticável, o ideal era
mantê-la para si. Pois, se fosse exposta, o opinador seria a ovelha
negra do grupo. Seria o rebelde metido a sabe tudo que, supunha-se, não
sabia trabalhar em grupo, nem demonstrar companheirismo aos demais
colegas.
César, como genuíno produto desta mentalidade
brasileira, não traiu suas raízes: em vez de receber a opinião de
Carolina como uma sugestão viável, preferiu amargá-la como uma ofensa
pessoal. A vlogueira deveria concordar com ele, sem nenhuma
contrariedade, e não desafiá-lo.
Entendeu que Carolina estava o menosprezando, e que buscava, por meio do que chamou desaforo, favorecer o próprio ego, negando-lhe o devido respeito.
Tomado
por rancor injustificado, típico de um brasileiro orgulhoso e chorão,
César não quis terminar o assunto desta forma. Se Carolina tivesse a
última palavra na discussão, seria como presenteá-la com uma medalha de
ouro, enquanto ele ficaria com a de prata. E, no que dizia respeito a
vitórias, a nação já havia lhe ensinado que, ou era ouro, ou era nada.
A porta do elevador se abriu. E enquanto César, emburrado com o mundo, ali entrava, escutou Daniel dizendo “mas que droga!”, numa voz alarmada que não só assustou Carolina, como também Marcelo, o porteiro mais à toa que a cidade já viu.
Antes
que a porta se fechasse, César viu o office boy puxar a manga da camisa
até o cotovelo e revelar seu celular de pulso, dizendo à Carolina:
— Não preciso contar os minutos pra saber que este será um longo dia!!
César
olhou para a vlogueira, que no momento pendurava os óculos de realidade
virtual no pescoço, ao mesmo tempo em que perguntava a Daniel:
— Mas o que foi?
— Bem....
A porta do elevador se fechou, antes que se pudesse ouvir a resposta.
César
subiu sozinho para o estúdio. Quieto, azedo e indignado com a aparente
indiferença de Carolina à discussão anterior, acabou tomando uma
decisão.
“Aproveite a companhia do seu amigo, sua babaca.
Pois aí embaixo, no térreo, você pode ter seus amigos. Mas no 2° andar, é
diferente. Lá, você está sozinha.”
