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Carolina, deixando Daniel para trás, e pretendendo ficar no
balcão só por 1 minuto, foi recebida com um gesto de reprovação
condescendente de Marcelo.
Balançando a cabeça com um sorriso amigo, ele lhe mostrou o tablet dizendo:
— A qualidade do seu vídeo está ruim.
— Está? Por quê?
— ...
Marcelo
só estava repetindo o que César havia lhe dito. No fundo, não sabia o
porquê da qualidade estar ruim. Ele próprio não tinha percebido os
pixeis desfocados no canto da tela, portanto não sabia do que estava
falando. Sua intenção em se mostrar útil tinha ido por água abaixo.
Carolina
ficou olhando para ele, quieta e séria, aguardando uma resposta
convincente. E como Marcelo não lhe respondeu nada, foi César quem
esclareceu o assunto. Roubando-lhe a vez, disse:
— O canto da tela está desfocado, e tem quadradinhos aparecendo ao seu redor.
Enquanto Carolina tomava o tablet para si, querendo confirmar esses defeitos, César continuou:
— Você precisa de uma câmera melhor. Essa daí prejudica a qualidade do seu vlog.
—
Não é minha culpa. É a câmera usada no audiovisual da imobiliária. Ela
tenta gravar em UHDTV, porque a fabricante a programou para fazer isso.
Mas como a lente não é boa, o resultado acaba sendo esse que vocês estão
vendo.
— E você não tem outra câmera na sua casa? Digo, você fazia vlogs antes de ser contratada pela Landschaft.
—
Ela é pior. O vídeo dela grava em 1080p, enquanto a câmera da
imobiliária grava em 2160p. Se vocês compararem os vlogs atuais com os
vlogs do ano passado, vão notar a diferença.
César, ciente de sua
responsabilidade como estagiário de publicidade, e com medo de ser
culpado pela má qualidade do vídeo, não se convenceu com a desculpa de
Carolina. Tomando o tablet de suas mãos, tentou repreendê-la dizendo:
—
O lema da Landschaft é oferecer o que há de melhor aos seus inquilinos.
Desde a arquitetura, até o conteúdo da emissora local. E este vídeo,
sinceramente, não é o melhor a se oferecer.
— Concordo. Motivo pelo
qual você, gerente honorário do conteúdo do site, deve exigir de Carlos
um equipamento melhor. Afinal, fui contratada para falar na frente da
câmera, não para melhorar a infraestrutura do estúdio.
— ...
— Não precisa me agradecer. Sempre conte comigo para lhe dizer como fazer seu trabalho.
César, mordido de rancor, desistiu de continuar a conversa. Devolveu o tablet para o balcão e acenou para Marcelo, dizendo:
— Até daqui a pouco.
Então
seguiu para o elevador dos funcionários, evitando contato visual com
Carolina, e também passando por Daniel sem lhe dedicar qualquer
simpatia.
Marcelo, intimidado pela resposta da vlogueira ao
estagiário, sentou-se quieto em sua cadeira e se voltou para o painel
eletrônico na parede de trás, fingindo interesse na previsão do tempo,
tentando, desta forma, mostrar-se ocupado. Embora estivesse frustrado
por estragar o diálogo assim, tão rápido, não pretendia puxar assunto
com Carolina tão cedo.
Já Carolina, agora querendo subir sem
demora para o estúdio, virou as costas para o balcão e se dirigiu até
Daniel, nem dizendo tchau para o porteiro. Estava mais preocupada em se
despedir do colega indígena, antes de entrar no elevador.
Mas enquanto ela se aproximava, Daniel retirou os óculos de realidade virtual e o estendeu para ela, dizendo:
— Coloque os óculos e veja você mesma. Não vai acreditar no que está acontecendo na lanchonete.
— Huh??
