(Baixar PDF)
Carolina não precisou olhar para saber quem era. Reconheceu a voz
de César Garcia, o estagiário de publicidade. E como se via em seu
rosto, não gostou nada de sua abordagem.
César cursava o 2° ano
de Comunicação e Marketing. Tinha 20 anos e vestia paletó e gravata,
como se fosse o próprio executivo do local. Seu cabelo, curto e escuro,
cheirava a álcool etílico doce, com mechas onduladas e úmidas.
Consequência do uso excessivo do creme de pentear.
Notou que
Carolina estava acompanhada de Daniel. César o conhecia de vista, embora
nunca tivessem conversado. Sabia que ele trabalhava para uma lanchonete
do bairro, e que mantinha contato semanal com a vlogueira, só a
negócios. Já os tinha visto juntos em outra ocasião, enquanto
conversavam sobre propagandas e patrocínios.
Ciente de que ambos o
encaravam, dando-lhe total, embora involuntária, atenção, soltou um
risinho egocêntrico, agora limpando a garganta. Estava louco para
impressioná-los, feito uma colegial se preparando para ficar nua na
webcam.
Mas antes de falar alguma coisa, Carolina tomou a dianteira perguntando:
— Por que estou enrascada?
—
Bem, então: Carlos chegou nervoso no estúdio, perguntando por você. E
como você não estava lá, ficou resmungando durante um tempão, na frente
de todos nós.
— Resmungou o que, por exemplo?
— Coisas como
"Carolina só sabe criar problemas para o estúdio, só sabe chegar
atrasada, e nem dá satisfação do que está fazendo."
Embora não
dependesse da opinião dos outros para manter a pose, Carolina sentiu um
pouco de mágoa. Falando mais para si do que para César, desabafou
baixinho:
— Por que os gerentes de Londrina precisam ser assim, tão grosseiros? Eles não sabem se comunicar. Só sabem rebaixar os outros.
— E quer saber mais? Ele disse "isso acaba hoje". Foi um espetáculo de braveza!
— ...
— O que foi?
Enquanto
Daniel se afastava, erguendo o pulso até a altura do queixo, querendo
terminar a mensagem de texto ditada, Carolina fechou a cara para César,
dizendo:
— Você parece muito feliz em me dar essa notícia.
— Eu? Por quê?
—
Sua voz, seu riso, sua prontidão em descrever o escândalo do Carlos...
sabe, você parece muito satisfeito em me contar tudo isso.
— Não! Eu tô normal.
— Então por que esse entusiasmo todo em me dizer que estou ferrada?
— Eu... só estou agitado com o trabalho de hoje. Tenho muita coisa pra fazer. Só isso.
— Bem, fique à vontade. Não se prenda por mim.
— Eu, hein...
César
balançou a cabeça, reprovando o que ouviu. Então, sem pedir licença,
dirigiu-se para o balcão da portaria. Lá saudou Marcelo em voz alta, com
um tapinha no ombro e um abraço exagerado. Fazia questão de
cumprimentá-lo assim, na frente de Carolina, só para mostrar a ela o
quanto era querido pelos outros.
Daniel, voltando para junto da colega, cobriu o pulso com a manga da camisa e perguntou:
— O que ele queria?
— Tirar sarro da minha cara. É um toupeira do caralho!
— Como assim? Ele te ofendeu?
— Não, nem precisou!
— Vish, você tá brava mesmo! O que ele te falou?
—
Nada de mais. Acontece que esse César é um idiota! Um insuportável!
Conheço o tipinho dele faz tempo. Gosta de dar más notícias para os
outros, só pra depois ficar pensando "que bom que não aconteceu comigo."
— Más notícias? Sobre você?
— Sim. Bem, nem tanto. Sei lá. Só disse que o gerente tá bravo comigo.
— Oh, isso. Talvez seja por causa do último vlog.
—
Não duvido nada. Ele foi ao ar na segunda-feira, e já estamos na sexta.
Porém, mesmo depois de quatro dias, ainda tem gente ligando aqui,
pedindo uma retratação da imobiliária.
— Falando nisso: a imobiliária vai se retratar?
— Até agora, ninguém disse nada. Pelo menos, não durante as reuniões do estúdio. Mas talvez decidam algo diferente hoje.
— Por quê?
—
De acordo com o merdinha do César, o gerente não só reclamou de mim,
como também disse "isso acaba hoje". Mas não sei se ele estava falando
de toda a situação provocada pelo vlog, ou...
— ... seu emprego.
— É.
— ...
Embora
esperasse o pior quando chegasse no 2° andar, Carolina tentou dar
atenção ao caso da lanchonete. Apontando para o pulso de Daniel,
perguntou:
— E você? Conseguiu falar com alguém sobre a reunião do sindicato?
— Acabei de mandar mensagem pra um colega. Agora tô esperando a resposta.
— Olha, seja o que for, não vá se atrasar. E por favor: não compre briga com o representante do sindicato.
— Eu não pretendia, mas... por que está me pedindo isso?
— Se você causar problemas, poderá aborrecer o Seu Osvaldo. E aborrecê-lo justamente hoje... bem, é uma péssima ideia.
— Do que está falando?
Carolina piscou um olho, sorrindo com humor.
—
Se eu perder meu emprego nesta manhã, vou deixar um currículo na
lanchonete. E estou contando com seu Q.I pra conseguir uma vaga.
Antes que Daniel devolvesse a piada, Carolina escutou Marcelo lhe chamando do balcão, ao lado de César.
— Carol, vem aqui. Você vai querer ver isto.
