(Baixar PDF)
Marcelo, acomodado em sua cadeira, ligou para o escritório do 2°
andar e chamou por Fernanda. Após avisá-la sobre a chegada de Seu Paulo,
pegou seu tablet, até então deitado sobre o balcão, e voltou a assistir
o vlog de Carolina. Estava envaidecido com os poucos minutos em que
dialogou com ela, e tinha esperança de conversarem novamente durante o
almoço.
Para ele, o dia voltou à normalidade.
Já Daniel,
agora usando o próprio celular para navegar pelo Cowboy Recauchutado,
segurava-se para não ir atrás de Seu Paulo. Em nome da honra de sua
colega, desejava muito quebrar-lhe os dedos, para impedi-lo de usar
qualquer aparelho eletrônico.
Contendo o impulso de entrar no elevador, mas sem desconsiderar a possibilidade da violência, perguntou à Carolina:
— Como assim “eu sei quem ele é”? Vocês se conhecem de algum lugar?
— Felizmente, não. Deus me livre de ter alguém assim no meu dia a dia.
— Você já foi na loja dele?
— Também não. Nem sei o que ele vende.
— Então como pode conhecê-lo?
— Daniel, essa pergunta é séria?
— Claro que é! Por que não seria?
— Porque você, melhor do que ninguém, deveria saber quem ele é.
Foi quando Daniel parou de navegar no site. Baixando o celular, olhou para Carolina e lhe deu maior atenção.
— Do que está falando?
—
“Virjão”, “vacilão”, “leléqui”, “huehue” e desrespeito total à
dignidade das mulheres. Daniel, é lógico que Paulo pertence à tribo
urbana da Zuera Never Ends.
— ...
— A mesma turma que te encheu o saco, durante o colegial.
— ... sim, eu lembro disso.
— Acesse o perfil do Procriador Veterano e veja a foto do avatar.
Trazendo
o celular de volta à altura dos olhos, Daniel fez como Carolina lhe
pediu. Aumentando o zoom na foto de Seu Paulo, viu a caricatura de um
garoto mulato, careca, com dentes frontais separados e olhos
esbugalhados saltando das órbitas. O fundo era pintado de amarelo e
estampado com textos “huehue's” verdes.
Daniel resmungou baixinho:
— O emblema da Zuera Never Ends.
— Sim.
— Pensei que estávamos livres dessa praga, depois que a Anatel implantou o sistema de rastreamento de IP.
—
Pragas brasileiras são difíceis de eliminar. Elas resistem à ordem e
progresso e batem de frente com as leis de conduta na internet.
— Não me admira aquele favelado...
— Lá vem você de novo com isso!
—
... estar usando boné de aba reta, aparelho dentário colorido e camisa
polo da Crocodilo Tenista. Ostentação brega é o uniforme de um zuero.
—
Não é apenas um uniforme: é uma mensagem de alerta. Algo do tipo “Ainda
estamos na atividade. Ainda estamos por perto”. E acho que essa
mensagem foi direcionada pra mim.
— Por quê?
— Veja bem: além de pertencer à tribo da Zuera Never Ends, Paulo também segue o movimento Café com Leite, certo?!
— Sim. Ou, pelo menos, é o que indica o símbolo no boné.
— E o movimento Café com Leite está com raiva de mim, por causa do que falei no meu vlog, certo?!
— Tanto eles quanto a Rede Lobo.
—
Por enquanto, esqueça a Rede Lobo e se concentre apenas no Paulo. Ele é
zuero, é Café com Leite e é cliente do serviço publicitário da
Landschaft.
— Sim, tô te acompanhando.
— Sendo um Café com Leite,
ele provavelmente ouviu falar de mim. E como tal, enquanto se aprontava
para vir aqui, imaginou que as chances de me encontrar eram grandes.
— E daí? Onde está querendo chegar?
—
Eu não acho que Paulo vestiu suas velhas roupas de zuero à toa. Não
acho que ele fica andando por aí assim, o tempo todo. Acho que ele as
vestiu de propósito, só para mostrá-las pra mim.
— Para te alertar sobre a existência da Zuera Never Ends? Algo do tipo “nós estamos vivos e estamos de olho em você”?
—
Sim. É como um índio pintado para a guerra. Ele tomou as dores do
movimento Café com Leite, então veio aqui disposto a me confrontar, e
não apenas para pagar a conta da propaganda.
Carolina mostrou a Daniel o comentário enviado ao Cowboy Recauchutado, assinado pelo Procriador Veterano.
—
Como Paulo está dodói com o que falei no vlog, ele pretende usar o
machismo para me afrontar. E como cyberbullying é a atividade principal
de um zuero, resolveu me adicionar no Cowboy Recauchutado, só para me
enviar esses comentários... abençoados.
— "Gostosa, mas azeda. Não pego nem pra chupar. Huehuehue."
Quando
terminou de ler a mensagem, Daniel ficou sedento por sangue. Por uns
breves segundos, esqueceu-se da existência da polícia, do tribunal e da
cadeia, ocupando-se apenas em se lembrar dos requisitos necessários para
uma prolongada tortura chinesa.
— Paulo deve estar cansado da terceira idade, pois acabou de assinar sua sentença de morte.
— Daniel, não seja uma bola de chumbinho estraga prazer. Esse rato pertence ao quintal desta gata aqui.
— Então seja rápida no bote, porque meu veneno fará efeito já já!
— Rápida? Só porque você quer. Se você não sabe, gatos costumam brincar com suas presas, antes de aplicarem a mordida final.
— E você pretende “brincar” com Paulo?
— Até eu me cansar. E não valerá ele me dizer que é café com leite.
— Hey, quero participar dessa brincadeira!
— À vontade, mas já sou primeirinha.
— Ok. Aceito ser segundinho.
Carolina sorriu com maldade, erguendo o polegar para o colega. Daniel, devolvendo-lhe o gesto, disse:
— Sabe o que me incomoda? Falando desse jeito, estamos parecendo o Paulo: criancinhas em corpo de gente madura.
—
Bem, levando em conta nosso sistema educacional e a disciplina dos
nossos pais, não é exagero dizer que as crianças brasileiras estão se
tornando verdadeiros monstros. E como diz um ditado militar: as vezes,
você precisa de monstros para combater outros monstros. Se o Paulo
pretende ser infantil comigo, é razoável lançar mão do velho “olho por
olho, dente por dente”.
— Quero morrer seu amigo, Carol.
— Eu que o diga! Foi você quem começou, dizendo “ele está cansado da terceira idade, pois assinou sua sentença de morte”.
— E estou errado? Porque francamente: como pode um senhor de idade ficar incomodando uma garota desse jeito?
— É o lema daquela tribo urbana: a zuera never ends. Never. Nem na maturidade, nem na velhice.
A porta do elevador se abriu. De dentro, alguém disse:
— Ah, finalmente te achei! Você tá enrascada, Carolina!
