domingo, 31 de agosto de 2014

49 - A ignorada

Valéria levou a mão à boca. Viu Carolina apoiar-se na parede, tentando manter o equilíbrio. O rosto dela ficou encoberto pelo cabelo, ganhando uma marca vermelha na bochecha, no formato dos dedos de Fernanda.

domingo, 24 de agosto de 2014

48 - Vulnerável

Fernanda olhou para o celular, fazendo cair uma mecha loira sobre a bochecha. Tentou ler os banners, cujas sílabas se movimentavam da direita para a esquerda, alternando entre o nome do produto, o preço à vista e os benefícios concedidos ao comprador.

Porém, como não conseguiu enxergar o que diziam, piscou os olhos para Carolina, sem saber do que ela falava.

sábado, 23 de agosto de 2014

47 - É proibido ser razoável

Carolina foi pega de surpresa. Como não escutou Fernanda se levantar, espantou-se com sua interrupção.

Com o pulso latejando, olhou de relance para a loira, cujo delineador, umedecido pelas lágrimas, borrara-lhe os olhos, arruinando a maquiagem.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

46 - A ex-candidata à embaixada bolsonária

A piada de Valéria, dita com tanta secura na frente de um idoso ensanguentado, foi um absurdo tão grande que acabou amenizando o ar da central. Tanto o humor inoportuno quanto a reação inabalada da jovem âncora reconfortaram o coração de Carolina. Era como se Valéria, por meio desta atitude, não visse motivo para pânico, mesmo diante de uma cena tão bárbara.

domingo, 10 de agosto de 2014

45 - Trocando o time

Com a chegada de Renato, Dalborga achou desnecessário ficar ali. Parando de andar em círculos, pegou sua toalha de rosto, que estivera se balançando ao redor do seu pescoço, e secou sua testa. Então, de cenho franzido, dirigiu-se para a porta do estúdio, com passos firmes e olhar penetrante.

sábado, 9 de agosto de 2014

44 - Dois desacordados e uma sonâmbula

Carolina estava numa saia justa. O temperamento de Dalborga e a aproximação tendenciosa de Alice desencorajaram sua permanência na central de vendas.

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

43 - Paternalismo bruto

Carolina, sem saber se Dalborga falara com ela ou com Alice, resolveu ficar quieta. Contentou-se em cruzar os braços e se encostar na divisória, ficando parada ao lado da porta, cansada e emburrada, de testa franzida e peito em chamas.

42 - Socialite no recinto

Dalborga era um homem conservado. Mesmo tendo 45 anos, sua pele era macia, nutrida e brilhante, de rugas atenuadas e coloração bronzeada, retendo sua elasticidade graças ao consumo diário de proteínas sintéticas. Estas eram baseadas na carne de boi, frango e peixe, repositores de colágeno.

sábado, 2 de agosto de 2014

41 - Uma católica de joelhos, mas sem orações

Carolina, estando diante de uma Alice modificada, friamente agressiva e pró-bolsonários, ficou tensa. Após ouvir a sugestão de que ela tinha utilidade ao grupo extremista, sentiu os dedos se contraírem, formigando em nervosismo.

A vlogueira ainda mais perto de você!

Ai ai, estava com tanta saudades que precisava fazer mais uma postagem para trazer coisas ainda mais legai para vocês!
Nós já estamos perto o bastante da nossa querida vlogueira Carolina, não é? podemos ler no celular, tablet, pc, baixar...quanta facilidade né? E agora para ficarmos ainda mais pertinho dela, hora da personalização \o/





Sim meus lindos, estamos agora criando wallpapers, o que acharam? Este é o primeiro mas logo logo sairam mais wallpapers e muuuuito mais.
Aliais eu ja falei que temos mais designes para camisetas e canecas agora? YEAH! A loja esta caminhando  todo o vapor e quando menos esperarem vai estar ai, espero que minha proxima postagem seja o link da loja com varias coisinhas para vocês. 

That's all folks :) 

Carolina, agora em cores :)

Olá leitores lindos <3
Hoje eu voltei para trazer mais uma das artes do nosso querido ebook, pintada por mim ( corre no meu DA e veja mais alguns trabalhos como fotografia e muito mais \o/ )  e desenhada por Gumpa BK. Particularmente eu acho que ela foi um dos meus melhores trabalhos em questão pintura, com o tempo irei me aprimorar mais e trazer coisas ainda mais bonitas para vocês!



quarta-feira, 30 de julho de 2014

40 - Colocando os pingos nos i's

Seu Paulo, caído com o rosto para baixo, perdera a consciência. Seu braço se dobrava ao lado das costelas, formando um L, enquanto seu boné de aba reta, lançado para trás, ficou tombado aos pés da cadeira, projetando a base da coroa para o teto. Sangue morno vertia de sua testa, onde se abrira um corte profundo de 3cm de largura. Escorria em filete até a sobrancelha, caldoso e salgado, empoçando-se no chão.

domingo, 27 de julho de 2014

39 - Alice no país do Huehue

Graças a sua divisória central, o 2° andar era repartido em duas metades iguais. Olhando da calçada, de frente com o prédio, a metade correspondente ao elevador dos funcionários ficava à esquerda, enquanto a do elevador dos clientes ficava à direita. Motivo pelo qual o comprimento e largura do estúdio de gravação eram iguais aos do seu aposento vizinho, a redação.

sábado, 26 de julho de 2014

38 - Bicando quem está quieto

Enquanto atravessava o estúdio de gravação, Carolina começou a se irritar. Percebeu que Alice, enraivada e distraída, não pretendia largar seu braço. Pelo menos, não até chegarem na central de vendas.

Segundo pensava, não era criancinha. Não precisava ser tratada com tanto zelo. Sabia que Fernanda precisava de ajuda extra. Ninguém precisava empurrá-la daquele jeito.

Com o orgulho ferido, tentou soltar-se da gerente, dizendo com toda a paciência:

quarta-feira, 23 de julho de 2014

37 - Dalborga

Dalborga continuava nervoso. Embora a redação tivesse voltado ao normal, ele não parava de pensar nos desaforos lançados à Fernanda, nem na ousadia de Seu Paulo em chamá-la de potranca, piriguete e novinha, sendo este último, embora menos chocante, igualmente injurioso.

domingo, 20 de julho de 2014

36 - Cavalheirismo zumbificado

Por causa deste déficit de etiqueta social, comum ao brasileiro barraqueiro e sem consciência coletiva, do tipo que não avaliava, em tempo real, a consequência dos seus atos, e nem a maneira pela qual estes mesmos atos seriam interpretados por quem estivesse por perto, a redação parou.

sábado, 19 de julho de 2014

35 - O presente que o diabo embrulhou

Na estação de trabalho, o lugar de Carolina se localizava no canto da mesa. Ficava de frente com a janela, de costas para a ilha de edição e imediatamente ao lado da porta do corredor.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

34 - Renato Ohara

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Carolina, Fernanda e Alice olharam para trás. A estranha saudação tinha vindo da escrivaninha solitária, por onde haviam passado sem dar maior atenção.

domingo, 13 de julho de 2014

33 - A redação

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O corredor em que estavam não representava a largura total do 2° andar. Na verdade, a divisória instalada no final servia para cortá-lo ao meio.

sábado, 12 de julho de 2014

32 - Miguxês gerenciado

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Fernanda não gostava de resmungar com os outros. Seu coração era mole demais para aguentar a frieza que, geralmente, vinha após uma bronca.

Além disso, mesmo sendo para desencargo de consciência, e não para remediação de uma injustiça, detestava pedir desculpas à pessoa censurada. Sempre se obrigava a fazê-lo, e sempre sentia a mesma coisa: ingrato rebaixamento, como se engolisse um sapo por quem não merecia.

Boas Novas

Olá vlogfãs, como vocês estão? Já estão esperando o novo capitulo? :)
Vim aqui hoje trazer coisas boas e bacanas para vocês. O que seria? O Vlog de Carolina está agora na Kobo, Itunes e Barnes & Noble. Corre conferir!

E a outra boa noticia é que nós estamos trabalhando duro na loja online. Esperamos que ela esteja pronta o mais rápido possível. E diga-se de passagem: eu acho que os novos designs estão uma graça só! Aqui vai uma prévia da nova estampa.

 

Calma, calma, meninos e meninas. Esta é só uma versão beta do que pretendemos trazer a vocês. Vai dizer que vocês não querem uma camisa com uma estampa bonita destas? Se vocês gostarem pode rolar até um sorteio! haha

Para finalizar vim deixar minha apresentação, eu sou a Bianca e faço parte da equipe do Teatro Caricato em Prosa. Sempre que tiver alguma novidade eu volto aqui. Um beijo para todos vocês, seus lindos! ;3

quarta-feira, 9 de julho de 2014

31 - A trindade dos tolos

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Alice estava gostando da conversa com Carolina. A história do avô ucraniano era interessante, e a análise sobre a demanda por documentários interativos era admirável. Sua presença tornava a Landschaft um ambiente inovador e estimulante.

domingo, 6 de julho de 2014

30 - Ucraniano abrasileirado

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O e-mail dizia:

Cara Sr.ª Alice

Nós, da Narcisa & Brizola, somos gratos pelos serviços prestados ao nosso setor publicitário. Somos especialmente gratos pelo empenho de sua funcionária, Carolina Godoy de Vilanova, em divulgar nossa marca em seu programa O Vlog de Carolina. Seu profissionalismo, diligência e carisma nos possibilitaram um trabalho conjunto positivo e ordeiro.

Porém, nossa política se baseia no respeito à ética e à moral, com ênfase na responsabilidade social e transparência com nossos clientes, funcionários e fornecedores. Não nos limitamos a oferecer o melhor produto, ou a gerar novos empregos: também nos preocupamos em preservar os valores de nosso país. Principalmente aqueles que nos distinguem como uma nação multicultural.

sábado, 5 de julho de 2014

29 - Lobo em pele de redator

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No título da notícia, lia-se o seguinte:

Vloguismo tendencioso: estamos regredindo para o Apartheid?

Carolina, atenta ao uso da palavra Apartheid, leu o nome do jornalista responsável pela matéria, que estava escrito abaixo do título: Emílio Florentino.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

28 - A poupança e o projeto

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Carolina, amargando a pergunta da gerente, deu-lhe um significado mais negativo do que desejava predizer. Lembrou-se de quando César, em nome do seu prazer à tragédia alheia, disse-lhe sobre o aborrecimento de Carlos.

As palavras agora se repetiam em sua memória, pesadas como uma sentença punitiva do STF: Carolina só sabe criar problemas para o estúdio, só sabe chegar atrasada e nem dá satisfação do que está fazendo. Isso acaba hoje.

terça-feira, 1 de julho de 2014

27 - O 2° andar

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Quando o elevador chegou no 2° andar, Carolina se viu em um corredor de 6 metros de comprimento, que poderia ser cruzado, de ponta a ponta, em dez passos. No teto, instalavam-se duas lâmpadas de led brancas, enquanto que, na parede da direita, haviam duas janelas de correr, cada qual com uma folha fixa e uma folha móvel, tendo nesta última um puxador de ferro.

26 - A desculpa e o sorriso felino

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Carolina ouviu a voz de Carlos vindo do headset. Com seu tom adulto, profissional e repreensivo, ele lhe disse:

— Seu Paulo está aqui comigo e tem uma queixa contra você.

25 - Amizade que não se quebra, ciúme que não se desfaz

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Daniel dobrou as hastes dos óculos e os guardou no bolso da camisa. Resolvido a voltar para a lanchonete, despediu-se de Carolina com um aperto de mão e um beijo na bochecha, dizendo:

— Nem se incomode em mandar seus fãs atrás do nosso milkshake hoje.
— Por quê? Duvido que a reunião durará até as 12:00 ou 13:00 horas.
— Não durará, mas... sinceridade? Não acho que seja uma reunião simples.

24 - Um legado de penúria isento de dignidade, por favor

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Carolina, feliz em ouvir a porta do elevador se fechar, e ainda mais satisfeita pela ausência de César, deu-se conta de que era sua vez de partir. Pendurando os óculos no pescoço, resolveu apressar Daniel lhe perguntando:

— Mas o que foi?
— Bem, preciso me livrar de uma coisa. Só de precaução.
— Se livrar do quê?

23 - A lógica de um sangue tropical

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César, ainda aguardando o elevador descer, não estava no melhor dos humores. Segundo entendeu, não apenas perdeu a discussão contra Carolina, como também foi diminuído em seu ambiente de trabalho.

Era como interpretava a conversa com Carolina: uma briga entre dois desafetos, não uma troca de sugestões entre colegas de equipe.

22 - Terceirizando problemas para a área alimentícia

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O óculos de Daniel era um modelo barato chinês, fabricado na zona industrial de Zâmbia, país africano a norte de Moçambique, e vendido sem embalagem no camelódromo da rua Sergipe, com 1 mês de garantia, sem direito à devolução. Sua armação era feita de acetato preto, e suas lentes, duas telas de LCD com 7 cm de largura cada, eram redondas e escuras, alongando-se verticalmente do nariz até a sobrancelha do usuário.

Carolina, indisposta a fazer companhia a César no elevador, resolveu esperá-lo subir primeiro ao estúdio. Embora estivesse com pressa, decidiu dar atenção a Daniel por mais alguns minutos.

21 - Paletó e gravata no corpo, autoridade imerecida na língua

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Carolina, deixando Daniel para trás, e pretendendo ficar no balcão só por 1 minuto, foi recebida com um gesto de reprovação condescendente de Marcelo.

Balançando a cabeça com um sorriso amigo, ele lhe mostrou o tablet dizendo:

— A qualidade do seu vídeo está ruim.
— Está? Por quê?
— ...

20 - Bromance não solicitado

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Enquanto Daniel e Carolina conversavam sobre o gerente e a lanchonete, César esteve combinando alguns detalhes extraoficiais com Marcelo.

Avisou-o sobre a vinda de uma encomenda particular, pedindo que o chamasse assim que ela aparecesse, e que, de preferência, não avisasse ninguém sobre isso. Uma encomenda que, segundo deixou subentendido, não tinha nada a ver com a imobiliária, nem com sua ocupação de estagiário.

19 - Sua tragédia é minha alegria de viver

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Carolina não precisou olhar para saber quem era. Reconheceu a voz de César Garcia, o estagiário de publicidade. E como se via em seu rosto, não gostou nada de sua abordagem.

César cursava o 2° ano de Comunicação e Marketing. Tinha 20 anos e vestia paletó e gravata, como se fosse o próprio executivo do local. Seu cabelo, curto e escuro, cheirava a álcool etílico doce, com mechas onduladas e úmidas. Consequência do uso excessivo do creme de pentear.

18 - Resgatando a criança problemática interior

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Marcelo, acomodado em sua cadeira, ligou para o escritório do 2° andar e chamou por Fernanda. Após avisá-la sobre a chegada de Seu Paulo, pegou seu tablet, até então deitado sobre o balcão, e voltou a assistir o vlog de Carolina. Estava envaidecido com os poucos minutos em que dialogou com ela, e tinha esperança de conversarem novamente durante o almoço.

Para ele, o dia voltou à normalidade.

Já Daniel, agora usando o próprio celular para navegar pelo Cowboy Recauchutado, segurava-se para não ir atrás de Seu Paulo. Em nome da honra de sua colega, desejava muito quebrar-lhe os dedos, para impedi-lo de usar qualquer aparelho eletrônico.

17 - É bem intencionado, mas não é bem-vindo

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Daniel, vendo Seu Paulo sumir no elevador dos clientes, quis pegar emprestado o cassetete de Marcelo e quebrá-lo na cabeça daquele senhor. Se fugisse do flagrante e se entregasse à polícia dali 24 horas, responderia em liberdade. Afinal, era um dos bônus especiais oferecidos pela ficha limpa: o primeiro delito era por conta da casa.

16 - Temperamento que sobe, atitude que desce

Marcelo, ciente do seu dever como segurança, colocou as mãos na cintura e estufou o peito. Manteve os dedos próximos ao cabo do cassetete, mostrando-se um homem grande e malhado, com o logotipo Stalker saltando do uniforme, e com uma expressão que, supunha, não apenas intimidava, como também impunha respeito.

15 - O marreco de novembro

O porteiro, na verdade, também era o segurança particular da Landschaft. Ex-guarda municipal cambeense e praticante de fisiculturismo peso leve, trabalhava como funcionário terceirizado da Stalker, uma empresa especializada em serviços de vigilância e escolta.

Era descendente de eslovacos e tinha 35 anos. Seus olhos eram escuros, feito burquinhas de vidro liso, e seus cabelos, cortados em estilo militar, eram tão castanhos quanto nozes de feira livre. Vestia um uniforme azul-marinho de manga curta, com logotipo amarelo estampado na altura do peito. Calçava coturno preto e lustrado, e tinha amarrado à cintura um cassetete de couro endurecido, cuja ponta era equipada com um taser de 50.000 volts.

Quando Carolina se voltou para o balcão, percebeu que ele estava rindo sozinho. Sentado na cadeira da portaria, de pernas cruzadas e apoiando uma mão no queixo, olhava para a tela do seu tablet, atento e risonho, exibindo dentes amarelados de café.

Percebendo que Carolina o observava, apontou-lhe o tablet e ergueu o polegar em gesto de aprovação, dizendo com humor:

14 - Essa honra, ninguém merece

Para Carolina, o nome Cowboy Recauchutado soou familiar. Sabia que era um clube, como o próprio título já indicava, e também desconfiava se tratar de uma rede social fechada, na qual só admitiam internautas aprovados pelo administrador. Um exclusivismo comum aos dizimistas da igreja evangélica, ávidos por um círculo social presumidamente abençoado, livre de pecados e cheio da graça divina.

Decidida a ler o conteúdo, Carolina quis perguntar a Daniel, antes de mais nada, se ele conhecia algum clube evangélico com aquele nome. Pois mesmo parecendo legítima, a mensagem também se assemelhava a um spam. E com a polêmica provocada no vlog anterior, precaver-se era obrigatório.

13 - O cowboy sabe demais

Daniel aproveitou a oportunidade para ditar uma mensagem de texto ao seu celular. Embora curioso e, por que não dizer, ciumento ao constatar que outras pessoas enviavam mensagens para sua colega, teve urgência em descobrir, primeiro, do que se tratava a reunião com o sindicato.

Ergueu o pulso na altura dos lábios e ordenou ao celular:

12 - Corujas, tucanos e a mensagem do sindicato

Daniel, pensando se tratar de alguma emergência na lanchonete, ou mesmo de algum capricho do Seu Osvaldo, ergueu o pulso e checou o celular sem demora. De repente, deu-se conta de que ainda estava em serviço, e que sua obrigação com Carolina deveria ter acabado havia muito tempo.

11 - Amizade e confiança à prova

Apesar do choque sofrido na conversa anterior, Daniel estava interessado em ouvir sua colega. Nem tanto por curiosidade: era mais por sincera amizade. Afinal, segundo entendia, antes ser amigo do que ser indiferente.

10 - O lado que o povo não vê

Carolina olhou para baixo, indignada com sua nova reputação, e triste em ver que Daniel, naquele momento, mostrava-se tão desconfortável ao seu lado.

— Não é justo, sabia?! Primeiro eles me pedem uma opinião. Depois eu tento expressá-la da maneira mais imparcial possível, já que não entendo 100% do assunto. E agora, sem mais nem menos, eles me transformam numa nazista, só porque respeitei a liberdade de escolha dos outros!

9 - O mal-entendido

— Eles colocaram minha foto em seu banco de dados, porque precisam de, como você me descreveu, modelos de beleza. Tanto minha foto quanto a foto de várias outras pessoas estão guardadas lá. Assim, os casais interessados poderão escolher o design do bebê, usando as fotos como guia.
— Então... sua foto está lá porque eles te acham bonita?
— Sim.
— E eles acham que as pessoas querem ter filhas iguais a você?
— Em aparência, sim.
— Será?

8 - O modelo de beleza e a maternidade sob medida

Após três segundos de busca, o site devolveu um total de 155 mensagens curtas, todas postadas por diferentes usuárias. Hashtags como #RIPdignidade e #partiusuicídio somavam-se ao termo pesquisado, acompanhadas por lamentos sobre inatividade sexual. Os lamentos, escritos com Caps Lock ligado, tinham vários erros de grafia, sendo quase ilegíveis para um leitor mais apressado.

Entregando o celular a Daniel, Carolina apontou-lhe as mensagens dizendo:

7 - Sensibilidade regional

Botando a mão na testa, e meio surpresa com a pergunta, Carolina disse:

— Você nunca reparou? Aquele site é um eterno velório da vaidade! Muitas idosas chorando pelo que já perderam, como dentes brancos, pele hidratada, cabelo espesso e outras coisas tomadas pela idade.
— Você diz “tomadas”, mas sabe que o dinheiro pode repor tudo isso, não é?! Qualquer clareamento dental e terapia com células-tronco resolveria o problema.

6 - Bicadas vaidosas

Erguendo o pulso, Daniel conferiu as horas no celular. Então, batendo o dedo na tela, apontou-o para Carolina dizendo:

— Pode resumir? Preciso voltar em dez minutos.
— Já? Mas ainda são 09:05. Por que precisam de você na lanchonete agora, tão cedo?
— Assim que os estudantes da federal saírem, eles virão correndo comprar o tal do milkshake. Especialmente as alunas de educação física.
— Hmm, só por que eu disse que bebo dele no almoço?
— Não sei. Foi isso que você disse no último vlog?
— Sim. Na seção de perguntas dos fãs, alguém me perguntou sobre minha dieta. Foi quando falei do milkshake hipercalórico de vocês.
— Então tô trabalhando assim, feito clínica de aborto no pós-carnaval, só porque as estudantes querem ficar iguais a você?
— Bem, sabe como é: a vaidade feminina dá trabalho pra todo mundo.

5 - Café com Leite

Carolina cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, olhando para Daniel como quem diz "Sério? Eu precisava ouvir isso?"

Daniel, percebendo o silêncio constrangedor, ficou envergonhado e tentou se redimir. Massageando a nuca, disse:

— Desculpa. Tema sensível.
— Sensível? Pra mim? Você não acompanha meu vlog, não é?!
— Acompanho! Na verdade, só falta assistir o de segunda-feira. O que rendeu tanto dinheiro pra lanchonete. Dizem que você falou umas besteiras preconceituosas.

4 - A operação e a mangueira falha

Balançando a cabeça, Carolina cruzou os braços e apertou os olhos, demonstrando certo desgosto, embora tentasse falar com humor.

— Ele fez o favor de me contar, infelizmente.
— Meu, que velho sem-vergonha!
— Bem, ele é dos tempos do sertanejo universitário e do funk ostentação, o berço da cultura "esculturas em carne viva".
— Sim! O terror das novinhas, como ele gostava de postar no Facelook.
— Postar no quê?
— Facelook. Aquele site falido de 30 anos atrás.

3 - A portaria e o office boy

Abrindo a porta de entrada, Carolina se viu na portaria.

Nela havia o balcão do porteiro, situado no meio do aposento, e mais dois elevadores, estes opostos um ao outro. No elevador da esquerda lia-se Para Funcionários, enquanto no da direita lia-se Para Clientes. As paredes eram revestidas com isolamento acústico e térmico, o que mantinha o silêncio e frescor no ambiente. No teto, acoplavam-se lâmpadas de led brancas.

Debruçado sobre o balcão, conferindo emails tridimensionais com seus óculos de realidade virtual, havia um office boy. Usava uma camisa de manga comprida, vestindo-a por dentro da calça jeans preta. Seu cabelo era arrepiado com pomada modeladora, e seu rosto, moreno e barbeado, revelava traços indígenas.

Enquanto Carolina fechava a porta de entrada, o porteiro apontou-a para o office boy dizendo:

2 - Carolina Godoy de Vilanova

Carolina vestia uma camisa vermelha desabotoada, com uma camiseta preta de gola redonda por dentro. Também vestia uma calça jeans azul e joelheiras elásticas pretas, ambas tecidas em sua casa com uma impressora 3D. Seu tênis, escuro e arranhado, era um modelo especial para ciclistas, vendido clandestinamente nas calçadas da rua Sergipe.

Tinha cabelos longos e escuros, com franjas laterais a contornarem seu rosto. Eram hidratados com creme de pentear barato, despencando lisos até as costas, cheirando a shampoo de supermercado.

1 - Landschaft e o Parque Emam

30 de abril de 2060.

Na zona leste de Londrina, entre a rodoviária e o Parque Industrial Buena Vista, a imobiliária Landschaft construiu seu bairro planejado. O arquiteto lhe deu o nome de Parque Emam, o equivalente kaingang para "parque do bom tempo".

Em respeito ao multiculturalismo, o setor da construção civil londrinense simpatizava com a língua indígena. O gesto agradava tanto os clientes quanto a mídia, mesmo que não fosse sincero. As aparências eram importantes para a manutenção dos bons negócios.

terça-feira, 10 de junho de 2014

O vlog de Carolina e o feriado antecipado no calçadão


Quando Carolina se tornou vlogueira, ela ainda acreditava no poder da honestidade. Achava que isto sempre falaria mais alto, independente da situação.

Porém, ela acabou subestimando o maior vilão deste país: a agressividade da opinião pública brasileira.

Agora Carolina precisa medir as consequências de suas palavras honestas. Pois esta qualidade, no Brasil, tornou-se adubo para a discórdia.

* * * *

Capítulos novos toda quarta, sábado e domingo, as 22:00, horário de Brasília.
Cores da capa por Biah MadWolve.

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Eu, Gumpa, declaro que:

Esta obra não é uma retratação fiel da sociedade londrinense. Na verdade, é uma representação caricata do comportamento médio brasileiro. A TV aberta, a internet, as mídias impressas e minhas experiências pessoais foram usadas como referência.

Qualquer semelhança com pessoas, estabelecimentos comerciais, empresas de grande porte, organizações civis e instituições públicas reais não é mera coincidência. Contudo, é uma semelhança que não se limita a um único indivíduo ou grupo específico, pois ela está presente em vários indivíduos e grupos reconhecíveis.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Ilustração: Carolina Godoy de Vilanova

A protagonista do ebook seriado O Vlog de Carolina